arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

André Tavares

Portugal Cultural | Perspetivas Críticas

Arquiteto, Coordenador Dafne Editora, Diretor Jornal Arquitectos

arqa: Tendo em conta o seu trabalho/investigação, de que forma considera a arquitetura uma atividade de natureza cultural?
AT: Ser estivador é uma atividade de natureza cultural, até atravessar a passadeira é uma atividade de natureza cultural. Não creio que a arquitetura seja mais ou menos cultural do que a especulação financeira ou a ajuda humanitária. Só que a cultura arquitetónica tem especificidades que lhe conferem uma relevância social muito própria. A primeira especificidade é preservar (ou dever preservar) uma abrangência de conhecimentos muito ampla para ser capaz de ser aquilo que chamamos arquitetura com A grande, uma certa forma de saber capaz de misturar a erudição intelectual com a intuição do trabalho manual, cruzando essa agilidade com uma consciência clara dos quadros sociais e culturais em que opera e o domínio de competências técnicas capazes de uma resposta cabal às exigências profissionais a que os arquitetos estão sujeitos. Se um arquiteto "fosse a todas", como eventualmente seria ideal, seria uma espécie de super-homem. Mas para ser bom arquiteto tem de ser um bocado estúpido, caso contrário tanta sabedoria tende a bloquear uma certa agilidade operativa fundamental para conseguir comandar processos de construção. Por isso, há que não confundir "cultura arquitetónica" com a cultura dos arquitetos. Em todo o caso, a capacidade de conceber simultaneamente uma forma - de preferência uma forma clara e operativa (por mais complicada que seja formalmente, clara na sua expressão social) - e um processo para a construir, partindo de um conjunto muitas vezes contraditório de exigências e solicitações, confere ao bom arquiteto uma competência muito peculiar e específica para lidar com estruturas de informação complexas. E, nesse processo, a cultura arquitetónica coloca ao nosso dispor um conjunto de ideias, processos, modelos, alternativas, histórias, etc., ao qual podemos aceder agilmente por partilharmos referências. Por isso, há uma grande ambiguidade entre a cultura arquitetónica em geral e a cultura dos arquitetos em particular.
Para não fugir à pergunta, convém dizer que a relevância simbólica, física e económica da construção coloca os arquitetos como possíveis agentes de peso na transformação de todas as paisagens. Isso é uma inevitabilidade, embora a incompetência dos arquitetos os possa arredar das decisões chave dessa transformação e transformar uma atividade de "natureza cultural" numa atividade de natureza "técnica", tal como um estivador tende a ser um técnico. Por isso é que é fundamental cultivar a arquitetura, para que não perca a sua especificidade e os arquitetos não se vejam empurrados ao ponto de perderem a relevância que podem e devem ter na transformação do território, das cidades, do quadro de vida das populações.

 

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Fev 2013

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