arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

José Forjaz

Contrastes Africanos | Perspetivas Críticas

Arquiteto, Professor Universidade Mondlane

arqa: Tendo em conta a sua atividade arquitetónica em Moçambique, e no âmbito do fenómeno de urbanização global, qual a especificidade do contexto territorial, urbano e arquitetónico Africano?

JF: África é grande, tem muitos países, muitas culturas e muitos ecossistemas. Tentar sintetizar a noção de "contexto" de um continente inteiro parece-me contribuir, um vez mais, para o erro corrente e comum que, sobre a África, os seus povos e as suas realidades, se tem propagado sistematicamente. Com todos os cuidados, possíveis e necessários, poderia tentar responder limitando-me à especificidade moçambicana, e mesmo assim, diferenciando as realidades urbana e rural e considerando as diversidades culturais e ambientais locais. Com estas reservas poderia apontar, como o fenómeno mais caracterizador da "antropização" do espaço em Moçambique, a dinâmica acelerada de transformação cultural, técnica e económica que atravessa a nossa sociedade. Seria muito difícil reduzir a caracterização desse fenómeno a poucas linhas ou a poucas causas mas arrisco enumerar as que me parecem determinantes: o fenómeno da descolonização; a guerra civil; o controle da economia pelos mecanismos globais do capitalismo e a imposição da sociedade do consumo; o atraso técnico e a debilidade infraestrutural; as dificuldades permanentes de estruturação de um sistema de ensino eficaz; a fraqueza e o grau de corrupção da administração pública e do sistema jurídico e judicial; as dificuldades de criação de uma "personalidade" nacional; a invasão generalizada do país por instituições internacionais e agencias de cooperação de diversos países que impõem as mais diversas atitudes e modelos de relação; o cosmopolitismo que resulta da posição geopolítica do país. Naturalmente todos aqueles fatores de transformação social influem profundamente no exercício da profissão de arquiteto. Por um lado as limitações financeiras, técnicas e tecnológicas, a burocracia instrumentalizada por funcionários incompetentes e corruptos para beneficio próprio, as dificuldades de transportes e comunicações, de acesso à energia, água e a inexistência de sistemas de saneamento e recolha de resíduos sólidos e, por outro lado, o desenraizamento e condicionamento cultural, seja público ou privado, conjugam-se na criação de um ambiente arquitetónico sem personalidade identificável.

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Out 2012

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