
Arquiteto, Professor FA-UTL, Autor "Geração Africana" e "Arquitectura e Urbanismo na África Portuguesa"
arqa: Tendo em conta a sua investigação da relação da arquitetura portuguesa em África, e no âmbito do fenómeno de urbanização global, qual a especificidade do contexto territorial, urbano e arquitetónico Africano?
JMF: A investigação que pude levar a cabo nas últimas décadas sobre a arquitetura e o urbanismo da antiga África Portuguesa, abrangeu espaços bem mais vastos do que os cinco países da atual África lusófona. Mas no essencial - como pude referir no volume sobre a África Subsahariana da obra Património de Origem Portuguesa no Mundo - Arquitectura e Urbanismo (dir. José Mattoso, ed. F. C. Gulbenkian, 2010-2012, ed. em português e inglês, e ed.em site eletrónico www.HPIP.com) - foi possível concluir pelo enorme valor intrínseco, diversidade tipo-morfológica e longa duração (quase 600 anos) desse legado patrimonial, nem sempre de origem (por vezes apenas de influência), mas sempre numa matriz identificável com a nossa cultura de extremo-ocidente-euro-meridional. De facto, em paralelo com várias obras e sítios da Época Moderna (séculos XV a XVIII), classificados pela UNESCO como Património da Humanidade nos últimos 35 anos (Ilha de Goreia no Senegal/1978, entrepostos no rio Gâmbia/2003, Forte da Mina no Gana/1979, ilha de Moçambique/1991, forte de Quíloa /Kilwa na Tanzânia/1981, Gondar na Etiópia/1979, Cidade da Ribeira Grande de Cabo Verde/2009, com previsão da classificação de Mbanza Congo em Angola), atestando esse valor, riqueza de formas/espaços e longevidade - a colonização lusa produziu mais recentemente outros, amplos e maiores valores, de que são exemplos marcantes as quatro ou cinco principais cidades, e o vasto recheio da sua arquitetura moderna, de Luanda a Lobito, de Maputo a Beira, de Bissau a Huambo, entre muitas outras localidades. Falo, no quadro dos 5 PALOPs - e criadas ao longo da Época Contemporânea, sobretudo nos anos 1860-1975 - de um conjunto de cidades, vilas e povoações, melhor, de um autêntico sistema urbanizador (territorial-ordenador), urbanístico (com base científica e planeada) e urbano (produtor de vivência e elevado ambiente para vida coletiva) que ficaram, apesar de guerras e abandonos conjunturais, e hoje constituem a base real para o relançamento ou dinamização da vida urbana desses países. O fenómeno pode explicar-se em parte porque, como refere o historiador Rui Ramos, a seguir ao caso da África do Sul, foram Angola e Moçambique que tiveram a força populacional colonizadora mais forte em todo o sul africano. Isto deixou raízes, sistémicas, vernáculas e disseminadas, que perduraram. Ora, no que toca à pergunta feita, ignorar ou menosprezar o significado, valor e papel deste conjunto patrimonial urbano e arquitetónico nos 5 PALOPs (e noutras áreas), nomeadamente a sua enorme utilidade e papel ativo no ressurgimento do fenómeno urbano contemporâneo destes países, substituindo esse papel pela eventual valorização das vastas áreas de "cidade informal" ou "subúrbio informal", por estas serem de origem especificamente africana - seria erro e absurdo idêntico a querer, nessas mesmas nações, como exemplo, apagar ou ignorar a língua portuguesa oficial, como seu elemento único de cultura unificadora e moderna - em favor de quaisquer línguas africanas locais tradicionais, por muito que custe a um olhar ideologicamente mais nacionalista. (...)
Out 2012

FLORIAN IDENBURG, ARQUITETO INTERNACIONAL COM MAIS DE DUAS DÉCADAS DEEXPERIÊNCIA, É UM DOS FUNDADORES DO ATELIER SO-IL, EM NOVA IORQUE. TEM UMPERCURSO PROFISSIONAL MUITO LIGADO A ESPAÇOS INSTITUCIONAIS, TENDO LIDERADOPROJETOS…
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