

1. No final de Julho de 2011, nos últimos dias antes do seu fecho, visitei no Pavilhão Preto do Museu da Cidade em Lisboa a exposição Urban Africa, "uma viagem fotográfica por David Adjaye". Nas palavras do arquiteto nascido na Tanzânia, filho de pais ganeses e radicado em Inglaterra: "Recolho as imagens e reflito sobre elas mais tarde. Para mim, este é um diário de esboços do ambiente urbano."1 Apesar da lógica empírica, a experiência da principal sala da exposição, centrada no fenómeno de urbanização do continente africano, construía-se através de mais de 2.000 fotografias de tamanho convencional, tiradas ao longo de uma década em 52 das 53 capitais africanas. Estas fotografias eram classificadas livre mas sequencialmente por regiões (geográficas, climáticas e paisagísticas), por tipologias (cívica, comercial e residencial), por contextos históricos (tradicional, colonial e contemporâneo) por modos de produção (erudito ou vernacular), revelando uma estranha consistência que a amostra extensa permitia. De facto, identidades e diferenças podiam ser estabelecidas tanto num contexto geográfico específico como em relações que emergiam de conexões imprevisíveis entre territórios à partida diferenciados. As características próprias de cada região cruzavam-se com relações que pareciam atravessar a escala do continente. Como referia, "não quero falar de África como o local de uma arquitetura vernacular verdadeira, mas como o lugar de modernidade radical"2. Sem pretensões ou aspirações científicas, Adjaye tinha montado um eficaz dispositivo crítico de interpretação da urbanização africana. Torna-se significativo a este nível que a revista arqa tivesse nessa altura nas bancas um número temático sobre "contrastes sul-americanos", onde nos concentrávamos no fenómeno de urbanização na América Latina. Nesse preciso momento, soubemos que mais tarde ou mais cedo lançaríamos um número sobre "contrastes africanos". Interessa-nos continuar a investigar, num outro âmbito geográfico próximo mas diferente, essa ideia vincada de "contraste" entre o formal e o informal, entre o luxo e a sobrevivência, entre o plano e a apropriação, que nos últimos anos tem ganho atenção crescente do mundo disciplinar dito desenvolvido. Diríamos que sob o espectro da crise financeira global há que "aprender com" a realidade mais contrastante da urbanização emergente.
(…)Out 2012

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