arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Olafur Eliasson

Silenciados pelo sentir

Um dos temas mais comuns na prática e receptibilidade da obra de arte diz respeito à experiência estética. Esta é uma questão que atravessa toda a história de arte, tomando maior protagonismo entre o século XVIII e o apogeu e deslumbramento do período romântico.

A experiência, ou o sentir, de uma obra de arte tem sido matéria para as mais díspares interpretações sobre o seu próprio valor, impregnadas que estão, invariavelmente, da mais pura e idiossincrática subjectividade. Experimentar, neste contexto, continua a ser uma lógica essencialmente individual que requer grande capacidade de comunicação para que se torne partilhável com o outro. O sentir não é necessariamente o sentido. Deste modo, e sobretudo pela sua tendente objectividade, o diálogo ou a intelectualização sobre a experiência de receptividade das obras de arte mantém-se quase sempre aquém do valor da experiência dita sensorial. E esta mesma dimensão remete-nos para a exploração da experiência do belo e do sublime que a teoria estética dos finais do século XVIII e princípios do de XIX desenvolveu de um modo bastante apaixonado e intenso, convertendo a sua interpretação num valor de cultura praticamente inalienável.

Ainda hoje, por entre as brumas de um conceptualismo dominante, buscamos de um modo mais ou menos consciente essa emoção que não tem palavra, a experiência global que une o sentir (sensorial) ao sentido (intelectual) das obras de arte. Apesar de todas as declarações vanguardistas, a arte contemporânea não dispensa, na verdade, o investimento na dimensão experiencial da sua manifestação.

Um dos casos mais paradigmáticos que, na prática artística contemporânea, recupera a globalidade sem palavra da experiência da arte é o dinamarquês de origem islandesa Olafur Eliasson. Com efeito, o sentido da experiência impõe-se com eficácia e naturalidade na maioria dos seus trabalhos, de um modo que, diríamos, parece incomparável, pelo menos no âmbito da sua geração. Ao predomínio na cultural ocidental da visualidade retiniana e da sua interpretação significacional, o artista dinamarquês procura contrapor a experiência do corpo na sua globalidade sensível, evitando de um modo deliberado tudo o que suscite um relacionamento estritamente interpretativo. Na esteira de um James Turrel, recorre-se aqui sobretudo aos efeitos lumínicos para encetar uma espécie de evasão espiritual que não se prende à tradição do visível mas que, pelo contrário, estabelece a possibilidade de uma verdadeira comunhão entre o ser e o espaço arquitectónico ou natural envolvente.

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Jan 2009

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