
Para que um objecto, personalizado (quase único) se desenvolva, se diferencie, entre os outros, é preciso que o tempo se imprima sobre esse mesmo objecto. É preciso tempo e um espaço que, após Emmanuel Kant e com a evolução das ciências e da lógica contemporâneas, foi considerado, na sua essência, uma questão cultural e histórica. O modo como encaramos esse tempo e esse espaço também se diferencia no modo como o medimos e os instrumentos que utilizamos para o medir.
Partindo desse pressuposto pós-kantiano, e relativista, de que o tempo e o espaço é vivido/percebido de acordo com a cultura e a história de cada um, voltemos a atenção para E. P. Thompson e para o seu breve ensaio “Time, Work-Discipline, and Industrial Capitalism”1. Thompson vai denunciar a diferença, o contraste, que se estabelece entre um tempo medido pela natureza e um tempo medido pelo relógio (ou a máquina). O autor relembra ainda os contos de Canterbury, onde um “galo ainda figura como personagem e instrumento natural de medição do tempo”. Thompson questiona, por isso, “Até que ponto a máquina, o relógio, que era preciso acertar, já se dizia no tempo de Newton, afecta a disciplina e mesmo a apreensão do tempo junto de quem trabalha?”, bem como o modo como concebe o trabalho. Igualmente sujeitos a uma transição, a uma mudança, para uma sociedade que se submete a uma condição industrial. Thompson relembra o modo, um modo primitivo diga-se, como as pessoas mediam o tempo, muitas vezes associados às actividades que realizavam nas tarefas domésticas ou na agricultura. O trabalho realizava-se de acordo com o ritmo próprio dos rebanhos, do ciclo do sol, ou das marés.
Em Madagáscar, o tempo podia ser regulado pelo período que é necessário para cozinhar o arroz (cerca de meia hora), como ilustra o autor. Um pescador, no mar ou no rio, mede as horas para realizar as suas tarefas de acordo com os caprichos das marés. Um pescador pode passar a totalidade da noite disperto afim de assistir às redes, ou controlar os ventos e marés imprevisíveis. Por seu turno, para um agricultor, o horário natural de trabalho poderá ser entre o período em que acorda, de madrugada, e o período em que anoitece, os ingleses têm uma expressão para isso, down to dusk.
Outras actividades rurais exigem outros tempos naturais: “As ovelhas devem ser guardadas antes que os predadores as possam alcançar”. Na realidade, estas actividades, guiadas por tarefas sociais, e pela própria natureza, parecem atestar uma muito menor “demarcação entre a vida e o trabalho”. Segundo Thompson, na verdade, parece não haver conflito entre o trabalho e a passagem natural do dia. A orientação das tarefas não se encontra muito afastada da vida e das inter-relações existentes “entre as pessoas, e das pessoas em relação à natureza”. Os ritmos próprios dos designers, os seus impulsos criativos naturais começaram a chocar com as exigências de lucro, esvaziadas, que se verificavam nas empresas e nas fábricas. A criatividade não se pode controlar, nem dividir de acordo com os caprichos do lucro.
Jan 2009

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