
Arquiteto [A].ainda arquitectura, Comissário Allgarve "Toll Free" e "Chain Reaction", Autor "Reacção em Cadeia: Transformações na Arquitectura do Hotel"
arqa: Tendo em conta a sua investigação em geral e a participação curatorial no programa Allgarve em particular, de que forma lhe interessa a temática do turismo?
LTP: Em 1994, o meu M.Arch, na Princeton University, iniciava-se "por engano" no design studio de Liz Diller, com um programa de revisitação do local onde JFK foi assassinado, para o projeto de um "Museu de Teorias", capaz de refletir a heterogeneidade histórica, a exposição mediática do evento, em que o jogo entre "autenticidade" e "autenticação" se tornavam objeto de escrutínio, espaço de construção museológica e turística. "A viagem ao passado nacional define a intersecção entre as redes culturais e de lazer. O passado é uma das mais fortes atracões do turismo, alimentando-se do desejo do turista, por autenticidade. Os sítios do passado nacional sustêm a história «oficial» através de reconstruções, reconstituições, visitas guiadas, apresentações multi-media, etc. - um sistema de «suplemento» no qual a própria vista pode tornar-se uma das suas representações." Disse, "por engano", porque se o que me interessara inicialmente no programa fora a confluência da infraestrutura rodoviária sob a ferroviária, e a implantação excêntrica do sítio (Dealey Plaza, em Dallas) no limite da grelha urbana consolidada, numa lógica de centralidade da arquitetura para mediar a inserção deste tipo de infraestruturas urbanas, surpreendeu-me o posicionamento central da temática do turismo no exercício de projeto - obviamente em coerência com a investigação que Diller + Scofidio acabavam de apresentar com a exposição SuitCase Studies: The Production of a National Past. Podemos questionar se o turista que procura as praias do Algarve é, ou não, o mesmo que procura os sítios históricos. O que retive, foi que este tema não podia mais ser lido com a sobranceria com que se costuma olhar o turista, a partir de uma presunção de privilégio do autêntico sobre o simulacro, e que a coisa podia ter alguma piada vista pela semiótica, e com o apoio, entre outros, de Umberto Eco e Travels in Hyperreality. Jogar a cartada do turismo no programa de arte do Allgarve a partir de 2008, era a coisa óbvia a fazer, se queria manter a arquitetura na programação, numa iniciativa financiada pelo Turismo de Portugal. E não só era óbvio como era pertinente que se introduzisse uma reflexão abrangente entre turismo e elementos estruturantes do território - porque estávamos no Algarve, e porque, entretanto, assumira um papel na direção da OASRN, em que a promoção pública da arquitetura constituía uma importante vertente dessa missão. Assim, com o balanço positivo do projeto Toll Free: Arquitetos Europeus em Trânsito na primeira edição do Allgarve (integrado na programação da Fundação de Serralves), os temas do Hotel contemporâneo e do Golfe foram propostos por mim no final de 2007, para os anos seguintes do programa, como uma tentativa de cruzar a vertente cultural, com uma vertente de think tank de potenciação destas atividades económicas. Não será surpreendente constatar que apesar da aparente sintonia de objetivos, projetos de investigação da natureza dos que implementei, de natureza transdisciplinar e com alguma densidade de conteúdos, dificilmente podiam ser compreendidos, quer pela indústria do turismo, quer pelas entidades oficiais que o gerem, simplesmente preocupados com a atracão turística que o projeto pode gerar, equívocos que, aliás sempre acompanharam o Allgarve em si mesmo.
Mai 2012

FLORIAN IDENBURG, ARQUITETO INTERNACIONAL COM MAIS DE DUAS DÉCADAS DEEXPERIÊNCIA, É UM DOS FUNDADORES DO ATELIER SO-IL, EM NOVA IORQUE. TEM UMPERCURSO PROFISSIONAL MUITO LIGADO A ESPAÇOS INSTITUCIONAIS, TENDO LIDERADOPROJETOS…
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