arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Gonçalo Furtado

Josep Maria Montaner

O Mistério do Silêncio da Arquitectura

Gonçalo Furtado: Comecemos pela ideia Vitruviana da origem da Arquitectura na cabana, que interessou a autores como Ignási de Solá-Morales, e a sua relação com a invenção do fogo, a linguagem e a sociabilidade. Falar sobre comunicação, linguagem, etc. - num número sobre o “silêncio”- poderá depois ainda levar-nos à fabulação sobre a nossa disciplina, á questão das linguagens arquitectónicas e ao mistério da Arquitectura e sua comunicação.

Josep Montaner: A descoberta do fogo em sociedades nómadas significou a possibilidade de estar numa situação mais estática, criar comunidade, partilhar. E remete aos inícios da Arquitectura, um elemento básico, primitivo. Louis Kahn, em Amo os inícios, aludiu ao contínuo retorno ao essencial, e Sigfried Giedion, no seu último livro Architecture, You and Me, fala da ideia de comunidade e como a Arquitectura Moderna perdeu o sentido de sociabilidade, comunidade, compartilha, que estava idealmente nas sociedades primitivas que estudara aquando do seu ensaio sobre o início da arte, do eterno e intemporal.

GF: Podemos entender o silêncio como um pólo numa dialéctica de opostos (i.e. ausência versus presença de som). Falando de selecção, ausências, dialécticas etc, abordemos as fabulações disciplinares sobre a nossa arquitectura moderna. Narrativas estilísticas, frequentemente assentes numa sucessão linear de factos e reconstruções do passado, facilmente instrumentalizáveis em prol de uma linguagem. Após uma historiografia do moderno assente nos mitos da tábua rasa e progresso, começou-se a atender á  complexidade do movimento e á avançar para “depois do moderno”.

JM: Sim. A questão de dialéctica, ausência e busca é complexa. É certo que a historiografia faz construções e interpretações da complexidade - Pegando em Sigfried Giedion ou Nikolaus Pevsner, o construir da história é fabulação que remete ao princípio da história - “e o zero é…” Le Corbusier ou outro. Manfredo Tafuri, faz uma construção historiográfica ideológica, frustrada pelas vanguardas impossíveis, seguindo uma selecção com o intuito de dar sentido. A base moderna de Tabula Rasa e progresso tornou-se hoje numa ideia discutível, eu diria errónea, (que necessitou de subestimar a arquitectura académica do século XIX etc.). Como explica John N. Habraken, a ideia de tábua rasa é falsa pois nem o projecto moderno nem vanguardas advém dela. A arquitectura projecta sobre territórios históricos; e quem projecta tem, como dizia Christian Norberg-Schultz, as suas intenções, sentidos e experiências.

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Jan 2009

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