arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Matilde Seabra

Portugal Turístico | Perspetivas Críticas

Arquiteta com Ivo Poças Martins, organizadora visitas arquitetura Fundação de Serralves e Guimarães 2012

arqa: Tendo em conta a sua experiência, no âmbito das visitas com a Fundação de Serralves e Guimarães 2012, de que forma lhe interessa a temática do turismo?
MS: No meu ponto de vista, aos arquitetos interessa-lhes viajar, mas não gostam de ser chamados de turistas. Os arquitetos quando viajam sabem bem o que querem ver, que o digam os companheiros "leigos" obrigados, depois de percorrem quilómetros perdidos, a pular cercas, a fugir de cães de guarda por ousarem espreitar por entre arbustos uma casa, considerada uma obra de arquitetura. Quando se é estudante de arquitetura pede-se sem timidez que se deixe entrar, alega-se que se vem de longe, "apenas" se quer fotografar ou desenhar. A temática do turismo passou a estar mais presente na minha vida profissional, paralelamente à prática de gabinete, com dois momentos distintos: na programação anual da Fundação de Serralves e na orientação de visitas especializadas a arquitetos (e estudantes), quase sempre estrangeiros, ao norte do país. No primeiro caso acrescentou-se uma alternativa às já existentes viagens de turismo cultural de arte e de paisagem. Delinearam-se novos roteiros onde a arquitetura é a protagonista ou até mesmo a vida e obra de um determinado arquiteto. Conseguiram-se visitas a edifícios e casas muitas vezes encerradas ao público, conheceram-se outras fundações ligadas ao património e arquitetura. Ao grupo inscrito, não especializado, é proposto uma visão mais ampla dos lugares visitados, um museu não é apenas visto pela exposição, mas também pelo edifício e sua relação com as obras; até o hotel pela sua arquitetura e design pode ser o ponto de partida ao percurso arquitetónico. As visitas pelo norte do país são organizadas por contacto direto e procuram revelar obras de arquitetura menos conhecidas do público especializado. Toda esta região com as cidades de Viana do Castelo até ao mar, com Braga, Guimarães, Porto recentemente demarcada pelos prémios Pritzker faz da Escola do Porto um must see do turismo arquitetónico contemporâneo. Cada viagem é adaptada aos desejos e objetivos do grupo, muitas vezes os professores escolhem um tema que esteja a ser desenvolvido em projeto: "Frente marítima ou fluvial", "Habitação coletiva", "Requalificação do centro histórico"... Da nossa parte contactam-se gabinetes e entidades públicas para fazerem comunicações ou apresentarem projetos, reúnem-se num dossiê desenhos técnicos e memórias descritivas. Por vezes, à troca de uns sabonetes de Marselha, de uns chocolates suíços ou de um whisky da Escócia, amigos nossos abrem a porta de suas casas e deixam entrar no exíguo apartamento do Bairro da Bouça de Álvaro Siza, na impenetrável casa-pátio de Matosinhos de Eduardo Souto Moura, no logradouro profundo de uma casa da burguesia oitocentista, tudo isto são momentos excecionais que tornam cada programa único. Evitam-se as correrias e ansiedade de querer ver tudo. O tempo é aproveitado numa espécie de deleite estético. Há tempo para debater questões culturais e sociais de cada lugar, para desenhar ou para simplesmente estar, nem que seja encostado ao muro da Piscina das Marés, ou a assistir a um concerto na Casa da Música. 

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Mai 2012

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