

1. A temática do turismo caracteriza-se hoje, por um lado, por práticas generalizadas de mobilidade dos indivíduos e, por outro, por críticas aos processos de massificação a que estas estão sujeitas. Se, a uma escala planetária, se multiplicam os potenciais destinos turísticos, dos históricos até aos exóticos, assiste-se igualmente a uma diversificação dos tipos de turismo, compreendendo o lúdico, o cultural, o terapêutico, o de aventura, o religioso, o desportivo, o urbano, o rural, o ecológico, o sexual, etc. O indivíduo contemporâneo parece ter alcançado definitivamente a desterritorialização. Depois dos trajetos sacralizados do peregrino, com percurso e destino definidos, do itinerário cultural do viajante, instituído pelo Grand Tour, e mesmo da experiência metropolitana do tipo blasé de Simmel e do flâneur de Benjamin, tornámo-nos cada vez mais sujeitos em movimento. Quando Zygmunt Bauman, na sua definição dos "sucessores do peregrino", distingue as categorias do "deambulador", do "vagabundo" e do "turista", fá-lo para caracterizar essa nova existência dinâmica do indivíduo contemporâneo.1 Mas o que se torna aqui determinante é que a prática da deslocação não está relacionada com a atividade turística em si, sendo antes a condição estrutural dos nossos tempos. De facto, o nosso movimento é hoje expansivamente físico e mental, real e virtual, local e global, algo que acontece entre as deslocações físicas, as viagens da consciência e, agora, as navegações na internet. Esta ideia serve-nos para interrogar as resistências que enquadram a questão do turismo no campo da arquitetura. Por sistema, os arquitetos têm tendência para criticar a indústria do turismo, confrontando a banalização generalizada do mercado turístico com uma autenticidade tradicional em desaparecimento. Esta conceção dicotómica leva à oposição entre a procura do mesmo, do primeiro, ao desejo do outro, do segundo. E, não negando o seu fundo de verdade, o problema que se coloca é que esta relação entre banalidade e alteridade acaba por se transmutar na distinção entre realidades arquitetónicas e urbanas. As más dominadas pela lógica turística do simulacro, as boas entendidas como bastiões de resistência do autêntico. Como se a alteridade fosse característica intrínseca de um certo ambiente pretensamente verdadeiro. É neste ponto que a nostalgia e a melancolia se apodera dos arquitetos nesse confronto com a realidade massificada do turismo, reduzindo-a a uma mera destituição do sentido da experiência. Mas não será a experiência de Monte Gordo no pino do Verão uma experiência estruturalmente "heterotópica" no sentido foucaultiano? E não teremos um verdadeiro contacto com o "outro", numas férias, em pacote tudo incluído, num resort em Punta Cana? Temos a impressão que essa relação com a alteridade, embora mantenha uma conexão contextual, depende igualmente da natureza da resposta do dito "turista".
(…)Mai 2012

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