

1. Para os arquitetos, a questão da ruralidade não pode deixar de estar marcada explicita ou implicitamente pelo texto seminal "Construir Habitar Pensar" de Martin Heidegger. Escrito em 1951, no imediato pós-guerra, e apresentado numa palestra para os futuros reconstrutores de uma Europa devastada, este texto teria um forte impacto na disciplina da arquitetura ao longo da segunda metade do século XX. O juízo do filósofo alemão, alicerçado numa rigorosa investigação etimológica, era perentório: "O que significa então bauen, construir? A palavra do inglês antigo e alto alemão para construir, buan, significa habitar. Isto quer dizer: permanecer, residir num lugar. O verdadeiro significado do verbo bauen, ou seja, habitar, perdemo-lo."1 Para Heidegger, o "esquecimento do ser" afastara o homem moderno do verdadeiro habitar. A sua abordagem fenomenológica baseava-se na ideia central de que a razão instrumental e o progresso tecnológico tinham rompido os laços do ser humano com o seu ambiente existencial. Mais, o filósofo afirmava que a "crise do habitar não residia simplesmente na falta de casas" e que esta era, na verdade, "mais antiga do que as grandes guerras mundiais com a sua destruição, mais antigas também do que o crescimento populacional na terra e a situação do trabalhador industrial". Com este ataque ao fulcro dos fundamentos da arquitetura moderna, Heidegger defendia que o problema residia no "desenraizamento" do habitante: "A verdadeira crise do habitar consiste em que, na sua busca sempre nova da natureza do habitar, os mortais têm sempre que aprender a habitar? E se o desenraizamento do homem consistisse nisto, no facto do homem ainda não pensar de modo algum a verdadeira crise do habitar como a crise?"2 Este ensaio pressupunha assim uma forte conotação anti-urbana, expressa nas referências a um mundo pré-industrial, desde a casa camponesa de madeira até à velha ponte de arcadas em pedra. Mas torna-se fundamental perceber que esta posição do filósofo era também autobiográfica. Algo que se pode testemunhar no seu texto "Porque vivo nas províncias", remetendo para a sua célebre "cabana na floresta negra". Retirando-se da metrópole, Heidegger procurava no mundo rural a autenticidade existencial perdida e o "poético habitar humano". No entanto, como refere Iñaki Abalos, na sua interpretação da "casa existencialista", referenciada na cabana de Todtnauberg do filósofo, "a casa de Heidegger é a manifestação dos conflitos existenciais com o tempo, aquilo que, simplificando, denominamos de nostalgia, o produto de uma idealização da densidade e da solidez do passado frente à banalidade do presente."3 A verdade é que Heidegger, na sua crítica à modernidade arquitetónica, instaurou uma lógica conceptual dualista que tem persistido na teoria e prática arquitetónicas. Apesar de matizada por tentativas de harmonização com o urbano, esta conceção essencialista da ruralidade atravessaria o pensamento de alguns dos mais importantes teóricos da arquitetura do pós-guerra. Desde logo, isto revela-se nas ideias dos principais comentadores arquitetónicos das ideias de Heidegger, seja Norberg-Schulz com a sua recuperação da ideia de genius loci, seja Kenneth Frampton com a sua definição do "regionalismo crítico" e posteriormente de uma "cultura tectónica". Nestas propostas teóricas existe uma adoção de estratégias de "resistência" às forças da modernização, através de uma valorização e preservação das presenças e práticas do território rural ameaçado. Na atualidade, ninguém encarna tão plenamente esta posição como Peter Zumthor. Nos seus escritos esporádicos, inspirados assumidamente no pensamento de Heidegger, e nas suas obras intensas existe essa procura incessante da autenticidade arquitetónica: "Penso que a arquitetura, hoje em dia, se deve recordar das suas tarefas e possibilidades genuínas. A arquitetura não é nenhum veículo ou símbolo de coisas que não fazem parte da sua natureza. Numa sociedade que celebra o insignificante, a arquitetura pode opor resistência, contrariar o desgaste de formas e significados e falar a sua própria linguagem."4 Curiosamente, tal como o filósofo alemão, Zumthor refugiou-se da vida urbana na sua casa-atelier nos Alpes. Porém, a realidade sobrepõe-se ao ideal, a necessidade impõe-se à melancolia. Com uma lógica não muito distante do fenómeno do revivalismo medieval do século XIX, demasiadas vezes a autenticidade do habitar ancestral é comparada com a inautenticidade do habitar metropolitano, a harmonia existencial do mundo rural é confrontada com a tensão vivencial da realidade urbanizada. Poderíamos dizer que esta pretensa oposição não tem permitido aos arquitetos perceber as transformações e potenciais da realidade territorial contemporânea, para lá da simultânea idealização nostálgica de um mundo em inexorável desaparecimento e da recusa intempestiva de um novo mundo em implacável expansão. Forget Heidegger?
(…)Mar 2012

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