arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Arte/Artistas

Fuencisla Francés, ou do gesto ao contexto

[english below]

Num ambiente artístico, algo provinciano, as propostas plásticas de uma “pintora” como Fuencisla Francés têm uma particularidade virtual de “repensar o mundo” e refletem de perto a criação “Die Welt neudenken”, que ganha vida, para muitos de nós, na sua formulação, na Bauhaus. Uma criatividade desafiante, de quem nunca deixa de ser original, reinventando sempre o ato criativo. e isso, mais do que criar, é encarar o gesto como diferente, singular e típico de algo, um “motus”, incomum ou, pelo menos, próximo da incerteza do “neu denken” Bauhausiano. gesto e “motus” que, no caso de Fuencisla, a lançam numa inesperada apropriação do espaço circundante, uma apropriação – empoderamento, como se diz agora - que leva consigo a quota do tempo e a aproxima das artes cénicas e da música. Revela a importância de nos aproximarmos do trabalho de um artista através da observação cuidadosa da sua relação (através de movimentos, olhares, posturas, etc.) com o seu contexto, materiais e dispositivos, que se movimentam para transformar e dar corpo à sua proposta. Da mesma forma que os artistas do som - os tardosinfónicos – confessam que “a sua origem geográfica é a partitura” há também aqueles que, pelo contrário, não usam notas nem sinais predefinidos e soam de acordo com os vários instrumentos ou dispositivos, contextos ou ambientes, distâncias, materiais e reflexões envolventes. de modo semelhante, no mundo convencionalmente dito das “artes plásticas” - o eco é também o de um material plástico singular - o repertório e a singularidade dos gestos criativos são muito extensos e vastos. Por isso, se nos aproximarmos atentamente do gesto criador de um Pinazo, imediatamente constatamos que nada têm a ver com os mil esboços de onde emerge e cresce a menina picassiana, nem com um único “dripping”, do chão, partículas e cubos de Pollock, nem mesmo com a precisão milimétrica de linhas de ilusão cinética e até ótica de um eusébio sempere. só para citar alguns protótipos que nos são próximos e facilmente identificáveis pela sua singularidade.
depois do que foi dito, qual é o gesto criativo de Fuencisla Francés? Para começar, é múltiplo, já que o seu ato criativo reclama toda uma sucessão de situações e cada uma delas pede um gesto bem distinto e complementar. Se o primeiro dos gestos é pintar superfícies, como é normal - no seu caso com uma paleta “tímbrica” em que predomina o branco e o preto - segue-se o segundo gesto: rasgar a peça pintada em pedaços, que por sua vez se transformam em pequenas telas, cada uma com a sua dimensão, contornos e superfície irregular. Um terceiro gesto definidor consiste em formar – sobre um fundo mais ou menos neutro – uma espécie de “colagem” com estas mini telas – pintadas e rasgadas – dispostas num espaço que, como veremos, tem “fome dos arredores”. É este terceiro gesto que compõe e define, a cada vez, o trabalho de Fuencisla Francés. Milhares de vezes, a “colagem” da nossa artista abandona-se a um desejo de infinito, que transborda todos os limites e se projeta pela superfície da parede, pela profundidade do ar ou pelas profundezas em que o seu “trabalho” se apresenta e sustenta ou dança, em suspensão e em voo. É a partir desta apropriação do contexto que a sua proposta plástica ignora mil vezes a parede, para se tornar espaço/ar, recetáculo de objetos suspensos: madeira de muitas formas geométricas diferentes. obviamente, previamente pintadas (pretos e/ou brancos), mas soltas e pendentes, perante a brisa, os ventiladores ou os tropeços do observador curioso que, muitas vezes, se sente convidado a entrar e participar destas formas suspensas, tornando-se ele mesmo, por um tempo indeterminado, parte da instalação, se assim o desejar. (O artista coloca e trabalha o espaço, o visitante coloca o tempo, cada qual o “seu” tempo). Antes de terminar estas considerações, quero enfatizar este último “bailado” gestual que Fuencisla realiza afastando-se do núcleo e da proximidade da instalação para, na distância adequada, perceber com o seu olhar e com todo o corpo, densidades, vazios, sobreposições e possíveis amontoados, desgastes e conotações de uma plastia, cuja singularidade rima e até convive com o contexto que já faz parte da intervenção. É neste ponto que o velho axioma da Bauhaus, que acima citámos, esse “Die Welt new denken”, ganha novas leituras e novas dimensões, porque, bem vistas as coisas, é ela que diz quando e como – ultrapassado o lenço e o seu bastidor – se devem deixar as coisas como estão, mas é também junto a ela que o espectador curioso, exterior na observação das suas propostas, é ele quem, ao olhar, caminhando, refletindo, deixando que o pensamento disfrute e se alastre, questiona o que vê e o que sonha e, em simultâneo, se pergunta: o que impede de juntar (ou retirar) mais um ou menos um “mosaico/recorte”, se, uma vez fora da moldura, uma vez apagadas as fronteiras, já tudo é espaço comum, pronto e aberto e desejoso de ser invadido por alguém? Fuencisla, aparentemente discreta, mas tenaz e insistente como poucas. Na verdade, as suas propostas, intervenções exploratórias e invasivas, contêm algo de fraturante. Sem exageros, sem ornamentos nem histórias, com a simples disposição num espaço de fundo infinito, flui todo um cosmos e voa, convertendo-se num jardim de imensidões voláteis e talvez caprichosas, que se conformam e se juntam seguindo um acaso necessário e passivo, como o das conchas que, segundo Cage, recolhemos ou deixamos na areia da praia, sem nenhum critério a não ser “não saber porquê”. Assim é Fuencisla. Penetrou – como um “Malevich-sem-travão” – num Suprematismo outro que, ainda que discreto e pouco conhecido, no início, - não deixa de imprimir a marca da sua proposta, onde vivem novas esperanças de um mundo/arte sem fissuras nem distinções. O que Fuencisla mostra e expõe redefine as fronteiras da arte no terreno do “habitar”, convidando quem se aproxima a unir solos, tetos, paredes, ar, profundidade e distâncias, com uma destreza, talvez caprichosa de fragmentos, “restos” filhos da pintura e de um punhado de densidades e tensões ou extensões, que parecem caminhar, crescendo como plantas vivas de um jardim ou bosque invasor, sempre “in statu nascendi”, sempre “work in progress” inacabados e como que pisando um “locus” aberto e fértil. A mim, esta fluidez, esta colocação quase monocromática dos elementos não centrais, nas composições de Fuencisla, sugere-me uma sensação muito semelhante à das músicas minimalistas, produto do ininterrupto ou da repetição, que não precisam de final, afastam-se e aproximam-se da música, o que basta. E essa semelhança, que percebo como músico, pode ser a chave para explicar a proximidade desta pintora, tão fora do comum, com toda a música, especialmente esse género musical que transita pelo inverosímil e pelo insólito. de facto, as instalações de Fuencisla foram muitas vezes combinadas, de forma eficaz, por artistas do som como Fátima Miranda, Pep LLópis, Llorenç Barber, Bartomeu Ferrando…

La Canyada. Valência. Março, 2019

 

(…) what is the creative gesture of Fuencisla Francés? To begin with, it is multiple, since her creative act demands a whole succession of situations and each of them asks for a very distinct and complementary gesture. If the first of the gestures is to paint surfaces, as is normal - in her case with a “timbrical” palette in which predominates white and black - the second gesture follows: tearing the piece painted in pieces, which in turn transform into small canvas, each with its size, contours and uneven surface. A third definitive gesture consists of forming - on a more or less neutral background - a kind of “collage” with these mini canvas - painted and torn - arranged in a space that, as we will see, has “hunger for the surroundings”. It is this third gesture that composes and defines, every time, the work of Fuencisla. Thousands of times, our artist’s “collage” abandons herself to a desire for the infinite, which overflows all limits and projects itself through the surface of the wall, through the depth of the air or through the depths in which her “work” presents itself, sustain or dance, in suspension and in flight. It is from this appropriation of the context that his plastic proposal ignores a thousand times the wall, to become space/air, receptacle of suspended objects: wood of many different geometric forms. Obviously, previously painted (black and/or white) but loose and hanging, in the breeze of ventilators or stumbling of the curious observer who often feels invited to enter and participate in these suspended forms, becoming himself , for an indefinite period, part of the installation, if it so wishes. (The artist places and works the space, the visitor places the time, each one “his” time). (…)

G COMINI FALA DO SEU TRABALHO

OS ESPIRITUALISTAS DIZEM QUE SOMOS SERES FRACIONADOS VIVENDO NUM MUNDO TAMBÉM FRACIONADO. A NOSSA MISSÃO NA VIDA É DEVOLVER À UNIDADE TANTOS FRAGMENTOS QUANTOS POSSAMOS ENCONTRAR PELO CAMINHO. ESTA É A ARTE DO SER HUMANO. NÃO
FOSSE POR NENHUMA OUTRA RAZÃO, ESTA PASSAGEM JÁ JUSTIFICARIA A ARTE DA COLAGEM.
MAS ISTO ESTÁ LONGE DE SER O MEU PRIMEIRO ESTÍMULO NESTA DIREÇÃO (...)

João Serra

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