arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Jane Rendell

Influências Ficcionais | Perspectivas Críticas

Professora Bartlett, Autora "Site-Writing", "Art and Architecture", Co-editora "The Unknown City"

arqa: Tendo em conta a sua investigação em volta da arte e arquitetura, de que forma lhe interessa a questão da arquitetura e/na/como ficção?

Jane Rendell: Sou absolutamente fascinada pelo papel da ficção na prática arquitetónica, é algo que utilizo na minha própria pesquisa e no ensino. Encaro a ficção como parte integral da investigação arquitetónica e como uma forma legítima de produção de conhecimento original. Para mim, a ficção não é meramente um assunto sobre o qual se pode escrever, é também um processo que fornece métodos e estruturas para o projeto e a para a escrita. A palavra ficção vem do latim fictum ou criação, é um ramo da literatura que está ligado a eventos que não são verdadeiros no momento em que se está a escrever sobre eles. Pode-se considerar que os elementos chave da ficção são as personagens, o enredo, o contexto, o tema e o estilo. Muitos destes termos têm uma relevância evidente para a arquitetura, especialmente o enredo, como uma sequência de eventos inter-relacionados, dispostos de modo a formar um padrão, e o contexto, como localização e tempo de uma história que, em certos casos, pode tornar-se numa personagem. Contudo, de todos estes termos derivados da literatura, o estilo é talvez o mais importante para a arquitetura, dado que a sua atenção se foca não tanto no que está escrito mas mais no modo como foi escrito. Já existe um debate bastante desenvolvido na literatura sobre a forma como a escrita ficcional se pode organizar espacialmente. No On Histories and Stories, a escritora A.S. Byatt examina o seu fascínio por "ficções topológicas", ficções onde o termo topológico significa "jogos matemáticos e narrativas construídas com imagens espaciais, ao invés de imagens temporais". A autora nomeia certas obras de Primo Levi, Italo Calvino e George Perec como os exemplos mais interessantes deste tipo de escrita. Na minha opinião, estes autores têm formas diferentes de criar ficções topológicas, enquanto que Calvino usa frequentemente a combinação e a permutação como estratégias para construir a forma das estórias; Levi pode inspirar-se em estruturas empíricas já existentes, como os elementos, para determinar a narrativa; e as taxonomias detalhadas de sítios reais de Perec são frequentemente reorganizadas de modo a produzir espaços fictícios. O conceito de "arquitextura" de Mary Ann Caw torna-se útil ao permitir que tenhamos em consideração textos e estruturas, que não são edifícios, como formas de arquitetura. Para Caw, o termo "arquitextura", que se refere mais ao ato de ler que ao de escrever, "situa o texto no mundo de outros textos, chamando a atenção para a superfície e textura do texto como forma de construção." Na própria disciplina da arquitetura são vários os escritores que se inspiram na ficção e outras técnicas de contar estórias para perturbar as formas habituais de crítica arquitetónica, de história e de teoria. Guiliana Bruno, no seu fantástico Atlas of Emotion, leva a cabo um objetivo de acordo com o qual a forma do livro que está a escrever segue o projeto do edifício no qual está a trabalhar (Guiliana Bruno, Atlas of Emotion: Journeys in Art, Architecture and Film, London: Verso, 2002), enquanto que Katja Grilner tem explorado as possibilidades para uma escrita considerada arquitetónica, situando-se, por exemplo, como sujeito numa paisagem, entre aqueles sobre quem escreve, entrelaçando várias vozes - desde arquivos históricos lado a lado com vozes fictícias (Katja Grillner, ‘Writing and Landscape - Setting Scenes for Critical Reflection', Jonathan Hill (ed.) Opposites Attract, special issue The Journal of Architecture, v. 8, n. 2 , 2003; Katja Grillner, Ramble, Linger and Gaze: Dialogues from the Landscape Garden, Stockholm: Axl Books, 2000).

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Jan 2012

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