arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Pedro Gadanho

Influências Ficcionais | Perspectivas Críticas

Arquiteto, Professor FAUP, Curador MoMA, Co-comissário "Once Upon a Place", Editor Beyond, Shrapnel Contemporary Blog

arqa: Tendo em conta o seu interesse pela arquitetura e ficção, revelado na revista Beyond e na conferência Once upon a Place, de que forma lhe interessa a questão da arquitetura e/na/como ficção?

Pedro Gadanho: A ficção interessa-me principalmente pelo seu potencial e capacidade para dizer o indizível. Um amigo e grande escritor ensinou-me um dia que a ficção não é apenas sobre inventar uma história, mas é essencialmente a ferramenta - e a disciplina - através da qual se encontram as palavras certas para exprimir a realidade, ou, se se quiser, a nossa leitura e interpretação dessa realidade. Frequentemente, confunde-se a ficção com entretenimento, ou literatura, ou cinema. A ficção é, no entanto, de modo mais relevante, uma das formas como articulamos ou transmitimos a nossa visão do mundo. Aproxima-se, nesse sentido, dos modos como a arte, ou a arquitetura, expressam perspectivas e tomadas de posição perante o mundo. Assim, não me interessa apenas o modo como a arquitetura é retratada na ficção - como, portanto, integra outras maneiras de "fazer mundos", como diria o Nelson Goodman - mas também como é que a arquitetura pode, ela mesma, assumir a sua dimensão ficcional implícita. Todo o projeto é uma ficção, mas durante muito tempo, talvez tentados pela ilusão das grandes narrativas modernas, andámos extremamente ocupados a escamotear esse facto. Ultimamente, porém, parecemos estar de novo abertos a explorar essa dimensão metafórica. E, nesse sentido, interessa-me recuperar a dimensão política da ficção: o facto de que a ficção foi sempre uma espécie de último reduto para resistir a qualquer regime excessivamente impositivo, excessivamente dominante. Para perceber isto, basta recordar como, entre nós, a ficção literária foi um dos mais importantes focos de resistência ao fascismo.

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Jan 2012

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