arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Projectos

Casa Turfa, Costa da Morte

Ensamble Studio

Arquitetura: Ensamble Studio - Antón García-Abril
Colaboração: Ricardo Sanz, Javier Cuesta
Promotor: Materia Inorgânica
Empresas: Tongadas & Zuncho Dolorido, SL. (betão); Galicorte; Macías Derribos (escavações); Suministros Zurich; Ganadería Paulina; Project Manager Franchetau
Área: 25 m²
Datas: Agosto 2006 - Fevereiro 2010
Texto: Antón García- Abril
Fotografia: Ensamble Studio, Roland Halbe

A trufa é um fragmento da natureza construído com terra, cheia de ar. Um espaço dentro de uma pedra que assenta no terreno e que se funde com o território. Está camuflada, ao reproduzir na sua estrutura os processos de formação mineral e integra-se no meio natural, submetendo-se às suas leis.
Fizemos um buraco no terreno e, amontoando a terra extraída no seu perímetro, obtivemos um dique de contenção sem consistência mecânica. Depois, materializámos o ar através da construção de um volume com fardos de palha e inundámos o espaço entre a terra e o ar construído para o solidificar. A massa de betão derramada envolveu o ar e protegeu-se com a terra. Passado algum tempo, retirámos a terra descobrindo uma massa amorfa.
Houve uma troca de propriedades entre a terra e o betão. A terra cedeu ao betão a sua textura e cor, a sua forma e a sua essência, enquanto o betão cedeu à terra a sua resistência e estrutura interna. Mas o que criámos não era ainda arquitetura, tínhamos fabricado uma pedra.
Com máquinaria de pedreiras fizemos alguns cortes para explorar o seu núcleo e descobrimos a massa do seu interior construído com palha, agora comprimida pela pressão hidrostática que o betão exerceu sobre a débil estrutura vegetal. Para esvaziar o interior, chegou a vaca Paulina, que se deliciou com os 50 m3 de comida de qualidade, com a qual se alimentou durante um ano até deixar o seu habitat, já como adulta e a pesar 300 kg. Tinha comido o volume interior e o espaço apareceu, pela primeira vez, restaurando a condição arquitetónica da trufa, depois de ter servido de abrigo para o animal e de massa vegetal durante um largo período.
A arquitetura surpreendeu-nos. A sua ambiguidade entre o natural e o construído, a materialidade complexa de que o mesmo elemento construtivo, o betão em massa sem reforço armado, podia dotar o pequeno espaço arquitetónico com escalas distintas. Desde a textura informe do seu exterior, à violenta incisão de um corte que nos revela a sua vocação arquitetónica, chegando à expressão fluida da solidificação do interior do betão. Esta materialidade espessa, que proporciona às paredes verticais uma escala rústica, resulta da dimensão dos fardos e contrasta com a liquidez do teto, que evoca o mar petrificado no lintel da moldura espacial que observa, de forma sublime, o oceano Atlântico, fazendo sobressair o horizonte como única linha tensa do espaço interior.
Para dotar o espaço de todo o conforto e habitabilidade, necessários na arquitetura, inspirámo-nos no "Cabanon" de Le Corbusier, recriando o seu programa e dimensões. O "cabanon de Beton" é a referência que faz da trufa um espaço habitável e desfrutável na natureza, que nos inspirou e nos subjugou. E a lição que retirámos foi a da incerteza que nos guiou na vontade de construir um fragmento da natureza com as nossas próprias mãos, um espaço contemplativo, um pequeno poema.

Jan 2012