arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Itinerâncias

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Reescrever o Pós-Moderno

«Devo dizer que prefiro viajar em comboios com gente!»

Em Novembro último, realizou-se no Colégio das Artes em Coimbra, uma série coordenada de eventos em torno do "Reescrever o Pós-Moderno". Coordenado pelo arquiteto e crítico Jorge Figueira, que desenvolveu tese de doutoramento sobre o tema do pós-modernismo em Portugal, este programa incluiu um livro editado pela Dafne, um colóquio internacional e uma exposição, ambos realizados em Coimbra. Curiosamente, quando se pensava que a questão do pós-modernismo em arquitetura estava enterrada, esta reemergiu intensamente em 2011, com uma série não coordenada de eventos internacionais: a exposição "Postmodernism: Style and Subversion 1970-1990" no Museu Victoria & Albert em Londres; as exposições individuais de Venturi Scott-Brown e Stanley Tigerman em Yale; a conferência "Reconsidering Postmodernism" no Institute of Classical Architecture and Art em Nova Iorque; as publicações do livro "The Story of Post-Modernism" de Charles Jencks e da revista A.D. "Radical Post-modernism". Neste sentido, o evento "Reescrever o Pós-Moderno" não pode deixar de ser lido neste contexto mais alargado. Falámos com Jorge Figueira para perceber as razões e motivações deste "retorno do reprimido" na arquitetura nacional e internacional.

arqa: Dizes não sem ironia que o "pós-modernismo" em arquitetura tem "má-fama" e que se aproxima mesmo do "insulto". Esta condição negativa e mesmo maldita do termo parece gerar em ti um certo júbilo. Quais são verdadeiramente "os prazeres de viajar num comboio-fantasma"?
Jorge Figueira: Devo dizer que prefiro viajar em comboios com gente! Não fui eu que escolhi, nem tenho particular prazer em que o comboio seja assim tão fantasmático. Até porque acredito que o que é "revelado" neste período dos anos 1970/80 é algo que nos é infraestrutural e que sub-repticiamente marca o nosso tempo. Para mim até é um pouco estranho ir no comboio, olhar para o lado, e não ver ninguém. Porque considero que embora vá numa direção desconhecida é um comboio central, em alta velocidade, que faz sentido. Acho estranho que vá tão vazio. Mas tenho consciência que isso se deve a razões muito diversas. Ao falar com Jane Pavitt, curadora da exposição "Postmodernism: Style and Subversion 1970-1990", no Victoria & Albert, ela disse-me que encontrou, no início, junto da tutela da grande instituição que é o V&A e junto de alguns dos protagonistas, uma grande relutância face ao tema da exposição. Mesmo num país modernista como é o Brasil, tenho descoberto mais recentemente que existe um pós-modernismo e arquitetos envolvidos nessa discussão que foi de certa maneira abafada, renegada ou superada pela máquina modernista que regressou em força viva nos anos 1990. Portanto, não é um fenómeno só português, é generalizado. Mas em Portugal, como temos uma certa ansiedade em nos aproximarmos daquilo "que está a dar" - porque temos pânico em ficarmos amarrados a algo que passe para a periferia e nos revele como tal - quando começou a ser nítido que o pós-modernismo estava "comprometido", toda a gente desapareceu do comboio, muito rapidamente. No final dos anos 1980, a comida ainda estava quente e já ninguém esperou pela sobremesa! Eu quando escrevo, entrevisto estas pessoas [em "Rescrever o Pós-Moderno"] ou organizo um seminário gostaria que houvesse maior empatia, que eu não tivesse de ser uma espécie de "detetive chato", a mexer em coisas que deviam permanecer esquecidas. O Paulo Varela Gomes, no lançamento do livro, disse que eu tinha sido um entrevistador "implacável", no sentido de mexer em coisas que não deviam ser mexidas. Por outro lado, chamo-lhe os "prazeres de viajar" com uma certa ironia, remetendo para a condição infantil do "comboio-fantasma", entre o fascínio e o pânico, entre o terror e o prazer obscuro da viagem solitária nesse comboio. E foi esse o prazer que pude sentir pois um outro, mais convivial, não encontrei. Agora, para retomar a tua questão, eu já sabia que o comboio estava fantasma quando entrei nele...

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Jan 2012

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