arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Influências ficcionais

A exploração da dimensão crítica e especulativa na arquitetura contemporânea

1. Em 1985, Peter Eisenman apresentava na 3ª Biennale di Architettura di Venezia o estranho projeto Moving Arrows, Eros and Other Errors. O arquiteto americano, como arauto máximo da autonomia disciplinar na arquitetura que, a partir da década de setenta, conquistou o meio académico e disciplinar norte-americano, tinha sempre procurado neutralizar radicalmente toda a dimensão significante exterior da arquitetura, fosse ela linguística, contextual ou programática. Neste sentido, não deixava de ser surpreendente nesta proposta para Veneza a convocação explícita da narrativa ficcional de Romeu e Julieta, no âmbito do que denominou de Cities of Artificial Excavation. A verdade é que o recurso ao dispositivo ficcional por Eisenman não era circunstancial nem inconsciente. O final do texto de apresentação do projeto revelava-o claramente: "Ao refletir nas duas condições - a «ficcional» e a «real», esta arquitetura nega a origem e o fechamento tanto da ficção (que é entendida como não tendo origem nem fim na realidade) como da realidade (que não tem origem nem fim na ficção)."1 Com Eisenman, a ficção autonomiza-se da realidade e o real separa-se da ficção, isto é, o mundo torna-se estruturalmente ficcional e o real torna-se puramente conceptual. Mas o que nos interessa nesta proposta radical é que Eisenman pretende quebrar violentamente os laços entre a realidade e a ficção. E, ao fazê-lo, anuncia inadvertidamente os debates que dominariam a década de noventa. Se, por um lado, a conceptualização da realidade remeteu para um centramento absoluto no ato projetual, que os arquitetos estrela pós-modernistas, desconstrutivistas, minimalistas, etc., confirmariam, por outro lado, a autonomização da ficção manifestava o fascínio pelo emergente mundo virtual, que acompanharia a afirmação da emergente produção digital. Num certo sentido, o projeto de Veneza marcou essa fratura entre a realidade e a ficção no campo da arquitetura, até que as duas linhas confluiriam nos principais arquitetos internacionais, primeiro explosivamente, depois implosivamente. O projeto esvaziou-se conceptualmente na realidade e a arquitetura virtual banalizou-se materialmente. Esta situação insatisfatória parece exigir uma mudança afirmativa de perspetiva. Uma reorientação que dê conta do atual restabelecimento das ligações estruturantes entre a arquitetura e a ficção. Aaron Betsky apontou o caminho: "A arquitetura é uma ficção. Os edifícios, evidentemente, são verdadeiramente reais. No entanto, a arquitetura está em tudo o que respeita os edifícios ou a construção. É o modo como pensamos acerca dos edifícios, falamos acerca dos edifícios, escrevemos acerca dos edifícios, desenhamos e compomos edifícios e organizamos os edifícios. Até se materializar num edifício, é portanto sempre uma ideia nocional."2

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Jan 2012

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