

A questão do devir da linguagem atravessa desde sempre, com coerente persistência, o percurso intelectual e a obra artística de Pedro Cabral Santo. Da instalação ao vídeo, a sua ação centra-se no domínio de uma ficção de características decetivas, buscando a desconstrução da constância acrítica produzida pelo excesso imagético da nossa contemporaneidade. Daí são retiradas curiosas histórias, personagens e ambientes, marcados muitas vezes pelo improvável diálogo entre seres cultural e morfologicamente híbridos, quase irreais, mas paradoxalmente reconhecíveis ou mesmo até familiares. É essa estranheza íntima e familiar que reage em nós de um modo fecundo, alimentando ainda uma identificação alternativa acerca do que somos, ou no que nos tornámos.
Revelado no início dos anos 90, Pedro Cabral Santo é hoje um dos artistas mais relevantes do meio artístico nacional. Depois de várias exposições coletivas realizadas nos principais espaços de exposição alternativos do nosso País, o artista apresentou em inícios de 2008, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a sua mais importante exposição individual até ao momento. "Tilt", assim se chamava a mostra, reuniu então alguns dos trabalhos mais significativos dessa investigação que toma como objeto de estudo e criatividade os curto-circuitos verificados entre os significados e os seres humanos homogeneizados pela era do simulacro.
De um modo geral, podemos afirmar que a efetivação da obra de Cabral Santo se processa na exploração de um território sempre móvel e inevitavelmente estabelecido entre a palavra e a imagem. O jogo que dessa leitura resulta envolve-nos numa teia de significados centrípetos, repletos de poder e identidade comum que nos mantém ligados, apesar da insinuante e omnipresente atmosfera decetiva, ao discurso produzido.
Este dispositivo dialogante exerce assim uma espécie de atração mínima junto do recetor da obra de arte. É justamente este subtil exercício de ínfima atração que permite a Pedro Cabral Santo avançar o compromisso essencial do seu projeto artístico, isto é, o trânsito de sentidos entre palavras e imagens. Estas não são entendidas aqui como unidades independentes, mas como elementos de um sistema conjunto que procura criar uma espécie de absurdo de comunicação, mantendo todavia um elo essencial de ligação e sentido que atrai o observador até ao final do exercício de recetividade.
Também deste modo podemos entender o dispositivo de atração construído como metáfora ou ideia de ligação à moral da história de "Pedro e o Lobo", narrativa infantil que inspira o título desta intervenção de Pedro Cabral Santo. Dois trabalhos essenciais podem ser associados ao universo da memória histórica e a sua decetiva manifestação na nossa contemporaneidade. Falamos de uma escultura suspensa - um lápis azul, precisamente intitulado Ponto Azul - e ainda de uma vídeo-instalação intitulada The Ice Cream from Space #2, espécie de odisseia de um gelado que cai na terra e começa imediatamente a derreter, depois de iniciado um inesperado diálogo com uma voz sem imagem, pura manifestação da linguagem em aproximação à ideia de Deus e à sua palavra. Não esqueçamos que, nas escrituras do Antigo Testamento, Deus falava aos humanos, procurando guiar-lhes a fé e o sentido da vida, em direção ao culto da transcendência, precisamente porque esta não produz, nem deseja produzir qualquer tipo de imagens, pois estas são o poço de uma ambiguidade disfarçada de estabilidade sígnica.
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