arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: Sandra Vieira Jürgens

Nuno Sousa Vieira

Investigação, a relação com os outros, o presente e o ausente

Estabelecer a relação com o outro, experimentar a ausência e repensar a condição física e visível da arte. A propósito da mais recente exposição de Nuno Sousa Vieira, Somos Nós Que Mudamos Quando Tomamos Efetivamente Conhecimento Do Outro, apresentamos algumas linhas de pensamento do artista sobre o processo criativo e sobre as relações de diálogo e de sentido que se constroem nos atos de produção, exposição e receção do trabalho. Em foco está o conjunto de obras que integra a sua mostra no Pavilhão Branco, até 5 de fevereiro de 2012, bem como algumas das anteriores intervenções que marcaram o percurso do artista.

arqa: Na tua prática artística percebe-se o movimento em direção a uma arte baseada na recuperação de relações e processos de trabalho, na reciclagem de materiais, na reabilitação, desvio ou transformação de estruturas arquitetónicas. O trânsito entre as condições preexistentes, os lugares e a tua intervenção é uma questão fundamental do processo de trabalho? Que motivações geraram esta linha de investigação artística?

Nuno Sousa Vieira: A partir dos trabalhos que desenvolvo, procuro aproximar-me de alguns paradigmas e contingências do quotidiano atual. No meu processo criativo, recorro muitas vezes, a uma espécie de personificação, como se fosse possível os trabalhos serem pessoas. Ou melhor, eu recorro a eles para "falar" de, com e sobre pessoas, de comportamentos e de relações. Vivemos num período fortemente marcado pela transitoriedade, quer do ponto de vista da mobilidade física e espacial, quer no domínio mental e esta transitoriedade surge quase sempre interligada com uma espécie de "descarte", de deixar para traz,  dando visibilidade à ideia de que é mais fácil fazer de novo do que acolher e cuidar o que está anteriormente feito. E, a meu ver, isto é verdade ao nível das relações interpessoais, como também o é nas relações que estabelecemos para com os espaços e edificações. As nossas cidades estão "entulhadas" de exemplos que atestam esta tendência. Edificamos novas construções e depois continuamos a edificar, para de seguida nos "desligarmos" das construções com mais alguns anos e, passado pouco tempo, temos uma rede urbana onde os edifícios recentes surgem como contraponto de edifícios devolutos.

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Jan 2012

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