
arqa: A questão geracional na arquitectura portuguesa atravessou recentemente os debates disciplinares. Existem diferenças geracionais na arquitectura portuguesa contemporânea? Se sim, de que forma se manifestam essas rupturas geracionais? Se não, quais as constantes e identidades que fundamentam a continuidade dos valores?
Eliana Sousa Santos: Existem diferenças geracionais em todas as instâncias da acção humana, é normal que existam na arquitectura, não sei se lhes chamaria rupturas. É evidende que há diferenças entre aqueles que estudaram nas décadas de 1980, 1990 ou 2000. O mundo mudou muito nos últimos trinta anos e em cada década há diferenças na educação, nos métodos de trabalho, no número de arquitectos e no tipo de trabalho que têm oportunidade de fazer. Acho que muitos arquitectos da minha geração começaram a trabalhar fora de Portugal, alguns voltaram e trouxeram ideias e métodos de trabalho diferentes, mas muitos permanecem noutros países. No meu caso, estudei durante um período optimista de crescimento económico, e comecei a trabalhar mal saí da faculdade, fora de Portugal, num atelier em expansão com projectos na Europa, nos Estados Unidos, Canadá e China. Na altura isto parecia-me normal, tanto que muitos dos meus colegas de faculdade fizeram percursos semelhantes. Não me parece que o mesmo aconteça hoje. Se a Europa sem fronteiras criou oportunidades de emprego para arquitectos portugueses há dez anos atrás na Holanda e no Reino Unido, hoje é a China o destino principal de muitos arquitectos Europeus. Com o tempo fui desenvolvendo uma posição crítica em relação a estes projectos à escala global. Embora os arquitectos sejam actores secundários no teatro do mundo, aceitando encomendas dos actores principais, beneficiando de situações que podem ser mais ou menos justas ou lícitas, também são responsáveis pelas consequências dos seus projectos. Os projectos de escala desmesurada feitos por equipas relativamente pequenas e sem conhecimento dos problemas locais, que até há poucos anos alimentaram grandes e pequenos escritórios na Europa, tiveram um travão com a crise económica global, mas parecem estar a recuperar, pelo menos no panorama internacional dos países em desenvolvimento. Em Portugal, o problema é diferente. Até agora, o grande cliente da maior parte das empresas foi, directa ou indirectamente, o Estado. Quando o Estado deixa de encomendar projectos, é natural que as coisas mudem radicalmente. E este problema aflige todas as gerações, independentemente das mais antigas terem beneficiado de um país em crescimento, ainda que pobre.Dez 2011

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Mai 2012

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