arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Itinerâncias

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Hans Ulrich Obrist

A esperança de ser um contributo para a empatia no planeta

arqa: No contexto do tema "useless" lançado pela EXD'11, quais foram as questões críticas que propôs para o debate "Design do-it Yourself"?
Hans Ulrich Obrist: Penso ser importante para a actualidade destacar a posição de Enzo Mari. Conheço-o já há muito tempo e considero-o uma grande inspiração, sendo um dos grandes designers do séc. XX. É uma lenda ainda viva. E como sempre acreditei que temos de olhar em frente, para o futuro, pareceu-me interessante convidar um designer muito novo, o Thomas Lommée, que explora o campo da internet. Mas o futuro baseia-se em fragmentos do passado e por isso pareceu-me estimulante combiná-los, uma vez que formam um par improvável. De qualquer maneira há uma ligação entre os dois.
O Enzo Mari é o autor de autoprogettazioni nos anos 60 e 70, que está dentro desta ideia do do it yourself (DIY) na arte e no design. A arte e o design não são apenas transmitidos através de objectos. Vivemos um momento de crise muito importante, uma crise não só económica, mas também ecológica. E por isso temos de pensar que vivemos numa época de recursos mais limitados e não podemos continuamente produzir e adicionar objectos atrás de objectos. E isto é também verdade para o mundo da arte e do design. Temos de repensar como reutilizar os recursos de maneira mais responsável. A autoprogettazioni de Enzo Mari, que nos fornece instruções e kits de como usar madeira e outros materiais colectáveis, desenvolve um design de alta qualidade de uma maneira DIY. Ao mesmo tempo, Thomas Lommée mostra-nos as possibilidades de um elemento criado e transformado através de uma cultura de recombinação em rede, através da internet. Neste âmbito alargado, não posso deixar de pensar em Stewart Brand e no Whole Earth Catalog. De modo que quando me foi sugerida a Open Talk, sobre o tema "useless" pela EXD'11, pensei que talvez o design não tenha apenas de ser feito de modelos aplicáveis mas também de modelos não aplicáveis. E o tema "useless" evoca exactamente isso, como referiu Enzo Mari na sua intervenção. Muitas vezes não é necessária a aplicação imediata que transforma o mundo, mas esta pode ser baseada no "efeito borboleta".

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Dez 2011

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