

O programa curatorial geração z encontra agora o seu último ciclo de exposições geração z #3.1
Depois de perto de 20 cadernos e 3 ciclos de exposições e conferências, eis chegado o momento para algumas breves notas captadas com o decorrer do programa. Gostávamos de convocar para isso o texto seminal de Nuno Portas "A
responsabilidade de uma novíssima geração no movimento moderno em Portugal", publicado em 1959 na revista Arquitectura: "Pensamos que uma importante contribuição para esse debate (...) seria precisamente o interrogar de uma novíssima geração, não só nas suas ideias e intenções mas sobretudo nas suas obras."2 Salvaguardando as devidas distâncias, pareceu-nos relevante, para este propósito, recuperar um texto determinante na historiografia da arquitectura moderna portuguesa em que o termo geração não era ainda tabu, mas fonte de esperança, transformação, senão mesmo emancipação. Porém, há que começar pelo mea culpa. Ao darmos sequência a um dispositivo crítico vindo da exposição Metaflux de 2004, em que Pedro Gadanho e Luís Tavares Pereira tinham confrontado uma geração mais velha X com uma mais nova Y, entrámos numa temática geracional que estava então no auge da polémica, mesmo que ensurdecedoramente silenciosa. E isto, percebemos agora, não terá contribuído para o debate. Este acabou por ser mais um processo de negociação com fracturas e tensões disciplinares recentes, do que propriamente sobre as mutações acontecidas nas práticas arquitectónicas da geração nascida após a revolução. De pouco parece terem servido as nossas tentativas de passar a discussão das questões disciplinares e programáticas para as questões profissionais e produtivas, ou a afirmada recusa de lógicas antagónicas entre arquitectos novos e velhos ou de oposição entre ruptura e continuidade.3
Neste último caso, foi-se revelando um segundo termo maldito: ruptura. A defesa generalizada de uma perspectiva da continuidade, por parte dos arquitectos e críticos auscultados e mesmo por alguns dos ateliers participantes, parece querer dizer-nos algo de relevante. No entanto, não deixa de ser estranha esta repressão ou mesmo demonização da ruptura. Como se a sua assumpção pusesse em causa, como num castelo de cartas, uma qualquer ordem derradeira para a arquitectura portuguesa ou despoletasse, como num barril de pólvora, um potencial conflito iminente entre as gerações activas de arquitectos nacionais.
Parece existir uma dificuldade estrutural em entender a realidade, nas suas diversas vertentes, como resultado de processos coexistentes e simultâneos de continuidade e ruptura, algo que acreditamos vislumbrar no referido texto de Portas. Mas outra coisa parece ter escapado ao debate, apesar de por nós afirmada desde o início do programa geração z.4 Aqui não será tanto o termo geração, mas a letra Z, que a caracterizaria, que ficou no essencial por perceber. Uma das nossas primeiras intuições foi que a última letra do alfabeto seria perfeita porque colocava na mesa o espectro do fim. E esse fim, referimos então, passava pela própria dissolução ou desintegração da questão geracional. Ao fim e ao cabo, propusemos a hipótese de uma geração que testemunhava o eclipse da lógica geracional. Recuperemos de novo o texto de Portas: "Porque há uma contribuição a esperar desta nova leva de profissionais: a de assumir as tentativas dispersas de pensamento e actuação que se têm tentado nos últimos anos, conferindo-lhes uma estrutura, um certo grau de síntese e de eficiência operativa."5 Serão exactamente estas questões estruturais, este "grau de síntese" e esta "eficiência operativa", que se tornaram hoje improváveis, senão mesmo impossíveis. E isto por duas ordens diferentes de razões, uma interior e outra exterior à pressuposta geração. Em primeiro lugar, se algo, no âmbito do programa geração z, pode ser comprovado pelos cadernos elaborados pelos ateliers, pelos números temáticos da revista e
pelas exposições e conferências é o quase total alheamento, distanciamento ou desinteresse pela constituição de um qualquer corpo unitário, de uma eventual plataforma comum ou de um possível programa sintético, que foi, diga-se, ao longo da modernidade, condição necessária à constituição histórica de cada geração. Não pode haver geração sem auto-consciência, portanto sem vontade colectiva e intencionalidade programática. A geração z será uma geração potencial que não se interpreta e assume como geração. Neste sentido, poderíamos dizer que, ao falhar, a geração z confirma-se. E isto não é, no nosso entender, necessariamente negativo ou positivo. É o que é, sinal de transformação e mudança e, quem sabe, de ruptura. Em segundo lugar, temos a impossibilidade da "eficiência operativa". Esta sim nos dias de hoje trágica, perante o horizonte profissional de inviabilidade, emigração ou renúncia, que não sendo geracional se manifesta de forma mais dramática nos arquitectos mais jovens. Mesmo tendo em conta que esta realidade instável e precária vai contrastando com o entusiasmo e empenhamento individual das novas práticas arquitectónicas emergentes. Mas se Portas apelava à "responsabilidade de uma novíssima geração", importa igualmente perguntar, qual a responsabilidade das gerações anteriores?
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