arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Gonçalo Furtado e Luís Lima

Arquitectura e Investigação

Sobre a experimentação e reprodução de conhecimento na academização actual

1.1. Este texto debruça-se sobre a experimentação e reprodução de conhecimento na Arquitectura contemporânea, tendo em conta o contexto universitário em que actualmente se processa a sua formação e as novas práticas emergentes. Desde logo, interessa indagar-se a definição da própria disciplina, assim como o papel que a investigação assume no seu desenvolvimento. Tal conflui na sua intrínseca interdisciplinaridade, atendendo-se à caracterização da formação actual dos futuros arquitectos em ambiente académico, e aos imperativos das novas práticas arquitectónicas.

1.2. Sendo a realidade contemporânea uma heterogeneidade de continuidades e rupturas, a Arquitectura reposiciona-se
permanentemente, sincronizando-se com o contexto envolvente e respondendo às circunstâncias do presente. Tal reposicionamento é, frequentemente, motorizado pela incorporação de conhecimentos, métodos e instrumentos de disciplinas periféricas à disciplina. Atenda-se que uma "disciplina", por definição, consiste numa área de conhecimento individualizável face a outras disciplinas, e que aglomera em seu redor uma comunidade específica. No entanto, tal não exclui a reincidente ocorrência de sobreposição de objectos e métodos entre distintas disciplinas. Relativamente à "arquitectura", esta encontra-se actualmente definida na enciclopédia como a "Arte de levantar construções de qualquer espécie. Disposição de um edifício, modo, método empregado para o construir, carácter dos ornamentos que o adornam. Construção, obra de feitura artística." Tal definição faz referência a duas dimensões associáveis à prática da arquitectura: Arte e Técnica. "Arte" enquanto habilidade que acompanha o "levantar" de qualquer construção, e técnica de "construção" enquanto acção/"disposição" criada pelo homem no meio envolvente. Refere-se ainda uma proximidade à "Ciência", que a distingue das restantes Belas-Artes. Com vista a aprofundar a simplicidade desta pretensa definição universal, podemos revisitar o entendimento que os próprios arquitectos fizeram da sua actividade na história. No seminal registo dos dez livros "De Architectura" (séc. 1ac), Vitrúvio procurou explicar "todos os preceitos da Arquitectura", isto é os saberes e normas que a compõem. Logo no primeiro capítulo do primeiro livro, Vitrúvio partilha uma definição da disciplina, mediante as referências que faz à ciência do arquitecto e conhecimento que este deveria possuir: "A ciência do arquitecto é ornada de muitas disciplinas e de vários saberes, estando a sua dinâmica presente em todas as obras oriundas das restantes artes. Nasce da prática e da teoria. A prática consiste na preparação contínua e exercitada da experiência, a qual se consegue manualmente a partir da matéria, qualquer que seja a obra de estilo cuja execução se pretende. Por sua vez, a teoria é aquilo que pode demonstrar e explicar as coisas trabalhadas proporcionalmente ao engenho e à racionalidade." De acordo com Vitrúvio, a "ciência do arquitecto" é pois formada por dois aspectos autónomos - a "Prática" e a "Teoria" (ou no original latim a "fabrica" e o "ratiocinatio") - mas impreterivelmente complementares para que os arquitectos atinjam "mais depressa, com prestígio, aquilo a que se propuseram". Simultaneamente, identifica o exercício da arquitectura como indissociável de uma formação multidisciplinar, incluindo conhecimentos que iam de desenho, geometria e aritmética, à literatura e conhecimento histórico, até interesses pela filosofia, música, medicina, direito e astronomia. O arquitecto deveria possuir um conhecimento geral quasi-enciclopédico, aproximando-se do que Vitrúvio entendia ser um "artista perfeito".

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Dez 2011

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