arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Rita Castro Neves

O quotidiano tem destas coisas: gestos, repetições e surpresas

Apesar da sua ancestralidade, o mito de Narciso mantém ainda uma aura singular, influenciando, na verdade, a interpretação de tudo o que diz respeito ao complexo processo de auto-descoberta do sujeito. Reza a lenda que Narciso, condenado a mirar-se num espelho de água, depressa se enamorou de si mesmo, perdendo a noção do real ao sublimar um prazer egoísta e isolado. A água, esse espelho aberto às profundezas do eu e ao pensamento especulativo1 ou metafísico, conduziu Narciso a uma idealização cega e desmesurada, a uma eterna e dolorosa fascinação pela sua própria imagem.

Ao partir desse mito, Ovídio concluiu em Metamorphoses III sobre a contradição inerente ao jogo de espelhos da identidade: "vejo(-me), logo não sou". Video ergo non sum2 é o título de um díptico em vídeo que Rita Castro Neves apresentou recentemente com o objectivo de assim reflectir sobre o impacto de uma paradoxalidade ancestral que ainda hoje nos acompanha, "vejo (video), mas o que vejo e me seduz não o posso possuir"3. Na verdade, a metáfora civilizacional do mito de Narciso concentra em si a evocação de um itinerário assombroso, pois o poder da imagem e os seus efeitos hipnóticos criaram desde há muito uma tradição de saber e de verdade que, aos poucos, tomou para si o domínio da nossa relação com o real, confundindo a nossa capacidade de autonomia e identificação existencial. Extensivo ao universo visual contemporâneo, esse poder traduz mesmo uma omnipresença aparelhada, em que os espelhos, os ecrãs, a luz que deles emana, ou os múltiplos reflexos vidrados que nos circundam diariamente acabam por devolver-nos, cada vez mais, a imagem fragmentada da nossa própria auto-satisfação, isolamento ou (in)comunicabilidade. Deslumbrados com a proliferação imagética dos nossos dias, o seu brilho imanente ou a sua retórica tecnologizada, mantém-nos ainda ou sobretudo ligados - outros permanecerão desligados, nessa oposição fundamental que, no entender de Friedrich Kittler, se converteu já em princípio ou categoria4 - aceitando os gestos quotidianos e a sua mediação constante, como se a felicidade dependesse apenas da imagem que dela construímos e da sua ligação com o mundo tecnológico. Os afectos e a velocidade da sua reprodutibilidade mediada desenham desse modo o limite possível das relações humanas neste início de milénio. O vidro, o espelho ou o ecrã constituem-se assim, ao mesmo tempo, não só como dispositivos de reflexo, visualidade e, por isso, de comunicação, como também enquanto campo de fronteira, isolamento ou separação. Se, por um lado, tal como defende Frederic Jameson5, o olhar domina ainda o saber e a experiência, ou seja, é por excelência a fonte do inteligível, por outro, a estonteante acumulação de estímulos visuais que nos absorve, desde os gestos mais comuns e quotidianos praticados no espaço privado à panóplia estridente do lugar público, parece desenvolver uma espécie imperscrutável de desvio ou desorientação por vezes comportamental.

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Dez 2011

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