

1. Em 1972, o grupo Superstudio apresentava, no âmbito dos Fundamental Acts, uma ideia visionária sobre a "vida". A Supersurface apresentava-se como um novo plano existencial infra-estruturado. Uma arquitectura "homogénea" e "isotrópica" puramente bidimensional, horizontal e contínua, sem quaisquer partições ou protecções arquitectónicas, portanto, sem estrutura de circulações definida ou hierarquia entre espaços servidos e servidores. Isto é, uma redução da arquitectura ao grau zero. Porém, o mais surpreendente era que a Supersurface não era pensada como uma estrutura física, mas como uma infra-estrutura ambiental. Uma "superfície quadriculada cartesiana" que se afirmava como suporte de vida, através do "controlo do meio ambiente pela energia": "Hipótese para um sistema total de comunicação, software, memórias centrais e terminais pessoais. Hipótese para uma rede de distribuição de energia, climatização sem paredes de protecção. Modelos matemáticos de uso cíclico do território, migrações de população, funcionamento ou não-funcionamento das redes... despoletando."1 Partilhando um mesmo universo com outros grupos radicais como os Archigram ou Archizoom, fundado numa ideia libertária de existência nómada e um pressentimento do impacto das novas tecnologias de informação, os Superstudio depuraram e rarefizeram, como nenhuma outra proposta utópica, essa convergência limite da arquitectura com a infra-estrutura. Nos dias de hoje, com as mobilidades aceleradas, as comunicações instantâneas, o controlo do meio ambiente e os novos sistemas energéticos, etc, diríamos que a premonição desenhada dos Superstudio se realizou, embora de forma desviante e impura. Dos vectores materiais às redes imateriais, da deslocação física ao acesso virtual, das relações inter-pessoais ao contacto anónimo, da localização do visível à indeterminação do invisível, a infra-estrutura contemporânea concentra as grandes questões do nosso tempo que, não sendo em si propriamente arquitectónicas e urbanas, aí não deixam de encontrar o seu intenso ponto de intercepção. Kazys Varnelis tem investigado esse campo existencial de confluência entre arquitectura, infra-estrutura e tecnologia. A "cultura das redes" não substitui o real pelo virtual, o analógico pelo digital, o performativo pelo imagético, antes actualiza de forma estrutural a nossa relação com o espaço e com o tempo. De facto, "a transição para uma cultura das redes não é meramente tecnológica, está profundamente ligada a mudanças sociais."2 Neste sentido, a evolução das nossas práticas espaciais, localizadas e temporalizadas, não pode deixar de estar no próprio fulcro da questão, tendo um impacto na estruturação das sociedades contemporâneas: "Conexões globais versus desconexões locais, a crescente sobreposição entre presenças locais e virtuais, o tele-cocooning, a emergência de mundos reais virtuais, e a sugestão de que os media localizados irão reconfigurar a nossa relação com o lugar oferecem oportunidades bem como desafios. O lugar, ao que parece, está longe de ser uma fonte de estabilidade nas nossas vidas, mas antes, mais uma vez, está num processo de transformação profundo e contestado."
(…)Set 2011

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