arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Ângela Ferreira

Histórias de ocupações, política e sobrevivência

Trata-se de uma evidência, que convém lembrar aos mais incautos, Ângela Ferreira é hoje uma das artistas portuguesas mais conceituadas em termos nacionais e internacionais, com um corpo de trabalho sólido e reconhecidamente empenhado em termos políticos e sociais, tendo representado o nosso país na edição de 2007 da Bienal de Veneza1. Nascida em Maputo, a artista vive actualmente entre Portugal e a África do Sul, situação que se reflecte sobremaneira nos conteúdos e nos processos de trabalho da sua produção artística, que tende a elaborar uma visão crítica sobre as relações culturais e políticas pós-coloniais, reequacionando na pós-modernidade os ditames de uma acção neo-colonial. Nas suas obras objectuais, de dimensão interdisciplinar, e frequentemente associadas a textos, fotografias e vídeos, a artista tem-se debruçado sobre a desconstrução de espaços e objectos artísticos, desenvolvendo referências políticas e sociais a partir do conflito entre o original e o simulacro, na assunção de uma temporalidade que metamorfoseia constantemente o valor e o significado da nossa identidade2.

"Hotel da Praia Grande (O Estado das Coisas)", é o título de uma fotografia de grande formato produzida em 2003 por Ângela Ferreira. Pela sua leitura quase imediata, apesar dos seus diversos níveis de interpretação e significado, este é um dos trabalhos mais emblemáticos da artista, que nos remete desde logo para um efeito deceptivo sobre um dos ícones do 25 de Abril de 1974, na referência ao cartaz comemorativo da "revolução dos cravos", onde uma criança coloca, em esforço, um cravo vermelho no cano da imensa metralhadora que se ergue perante si. A popularidade da imagem original, entre a simbologia romântica e purista de um novo começo e o kitsch fotográfico da sua produção em estúdio, permanece todavia na memória colectiva do Portugal democrático. A analogia entre esse cartaz e o trabalho de Ângela Ferreira é inevitável, produzindo, contudo, o paradoxo de um estranho distanciamento. Se o gesto de colocar um cravo vermelho num orifício verticalizado se repete, identificando desse modo a origem da citação iconográfica, tudo o resto se altera. O miúdo loiro da fotografia comemorativa dá aqui lugar a uma mulher em fato de banho (a própria artista) que estende o braço nesse gesto inconfundível. Porém, são muitas as pequenas diferenças que reinterpretam essa imagem mítica. Por exemplo, a espingarda-metralhadora original transforma-se aqui na base nada belicista de um simples chapéu-de-sol. Por outro lado, se a criança estende o braço esquerdo, a personagem feminina mimetiza esse mesmo gesto estendendo, no entanto, o braço direito, (denunciando assim uma subtil leitura política) ao sair das águas da piscina de um hotel muito particular, num dia cinzento e bisonho. Se, na imagem dos anos 70, tudo tinha sido encenado no espaço fechado de um estúdio de fotografia, desta vez, a imagem revela uma outra encenação que funde muitas outras referências a partir de um espaço exterior. A deliberada evocação do Hotel da Praia Grande, que não por acaso dá título ao trabalho, resulta assim como modo de contrapor simbologias aparentemente inassociáveis, mas afinal bem mais próximas de nos guiar a uma reflexão contemporânea sobre os destinos da "revolução dos cravos".

 (…)

Set 2011

Outros artigos em Artes

Imagem - Invasões Contemporâneas

Invasões Contemporâneas

No início do século XIX, as invasões territoriais dependiam sobretudo do aparato e da força militar. Foi assim na Guerra Peninsular como o foi durante milénios em todo o… 

Mai 2012

Imagem - Estado dos museus

Estado dos museus

No site da Tate Modern pode ler-se o seguinte aviso: a grande procura de bilhetes para a exposição de Damien Hirst em Londres aconselha a que os visitantes reservem… 

Mai 2012

Arquivo de Artes