arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Jorge Mario Jáuregui

Contrastes Sul-americanos | Perspectivas Críticas

Arquitecto, Urbanista, Coordenador Projectos "Favela-Bairro" Rio de Janeiro

arqa: Tendo em conta a sua investigação teórica e prática e intervenções nas favelas do Rio de Janeiro, e no âmbito do fenómeno de urbanização global, qual a especificidade do contexto territorial, urbano e arquitectónico da América Latina?
Jorge Mario Jáuregui: A América Latina no seu conjunto, pode ser vista como um continente em vias de desenvolvimento (nele se localizam neste momento, países com altas taxas de crescimento económico) no qual os aspectos sócio-ambientais estão no centro das considerações. No aspecto urbano, a transformação acelerada das grandes metrópoles (Cidade do México, São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Caracas, Lima, etc) apresenta profundos contrastes entre as características físicas dos sectores formais e "informais". Os projectos de escala urbana tais como os desenvolvidos para o Complexo do Alemão (13 favelas - 80 mil habitantes), o Complexo de Manguinhos (11 favelas - 40 mil habitantes), e o Núcleo Habitacional da Rocinha (150 unidades habitacionais - 700 habitantes aproximadamente), todos na cidade do Rio de Janeiro, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Lula, buscam constituir pontos de passagem e de conexão entre esses dois "mundos", o formal e o informal. As intervenções articulam os aspectos físicos (urbanísticos, infraestruturais e ambientais), sociais (económicos, culturais, existenciais) e ecológicos (ecologia mental, social e do meio ambiente), com as questões de segurança do cidadão, nas suas intersepções com as problemáticas do sujeito contemporâneo. Sujeito este submetido a profundas mudanças nas relações interpessoais, de trabalho, de condições de vida da família, e de comunicação, que tem consequências tanto na configuração do espaço individual (unidades habitacionais) quanto colectivo (novas formas de mobilidade e de uso do "espaço público"). A intervenção através de projectos de estruturação sócio-espacial permite pensar a necessária interrelação entre urbanismo e políticas públicas para criação de trabalho e renda, que estão intimamente ligadas à mobilização produtiva do território e à implantação de novos núcleos habitacionais e produtivos, configuradores de áreas de prestígio no próprio coração dos bairros populares existentes. Espécies de novas Ágoras Urbanas, interconectadas através de transporte público de qualidade, não poluente, e atendendo aos diferentes ritmos urbanos. Estes projectos, capazes de galvanizar o imaginário colectivo, apontam para novas formas de articular cidade, urbanidade e espaço público de qualidade, com o conceito de sustentabilidade, na perspectiva de uma ecologia existencial, isto é, de uma visão tendente a promover uma reorientação geral dos comportamentos individuais e colectivos.

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Jul 2011

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