
Há uns anos, alguém defendeu a tese absurda e abstrusa de que as favelas abriam um capítulo importante na história da arquitectura. A polémica surgiu. Vozes levantaram-se apoiando o argumento, e outras reduziram-no a uma infantilidade. Até o velho Niemeyer ergueu o seu protesto, com a autoridade intelectual, profissional e ética que se lhe reconhece.
De uma vez por todas: a favela é o produto do desespero urbano, da fome e da miséria. É uma questão política e uma deformidade do sistema. As favelas são desurbanizadas, cujo desenvolvimento e crescimento são absolutamente caóticos. Não possuem infraestruturação, nem disciplina, nem rigor profissional. São edifícios amontoados, construídos com rapidez impressionante e motivados pelo desespero que faz dos pobres a matéria de todos os infortúnios.
Considerar a favela objecto de atenção estética é um insulto, não só a quem lá vive como aos arquitectos e às pessoas de bem. A snoberia falsamente intelectual propôs a tese, alheando-se dos conteúdos sociais e políticos que a favela envolve e determina. Uma tese não só condenável como repugnante. Os pobres não precisam de absurdos desta natureza para adquirirem um estatuto social e artístico. Leia-se, por exemplo, Georges Steiner, acaso «As Lições dos Mestres» para se perceber a falácia e liquidar o embuste.
Actualmente, existem programas de requalificação das favelas que poderão ter êxito. Como uma cirurgia reconstrutiva, tentam melhorar os modos de viver e a existência dos favelados. Mas o problema, o grande problema continua a ser a vertente Política.
A arquitectura brasileira sofreu grande influência do Movimento Modernista e de Le Corbusier. No Rio de Janeiro, sobretudo, esse tipo de arquitectura é visível. Baseia-se, fundamentalmente, no nacionalismo ou na pesquisa das raízes culturais do país, até à cultura índia, para se associar, ou justapor, às urgências e às necessidades sociais. Os nomes dessa tendência são, entre outros, Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas. Todos eles têm uma forte conotação ideológica com o marxismo e com as correntes mais progressistas que, nos começos do século XX, percorriam boa parte do mundo, particularmente na Europa.
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