

1. A última década do século XX ficou marcada, no campo da teoria de arquitectura, pelas denominadas conferências Any. Organizadas por Cynthia Davidson e com a presença de um corpo relativamente fixo, integrando figuras incontornáveis como Peter Eisenman, Rem Koolhaas, Beatriz Colomina, Ignasi de Solà Morales, Fredric Jameson, as conferências viajaram anualmente, durante toda a década, pelos mais variados pontos geográficos do globo terrestre. Estas "10 conferências multidisciplinares e culturalmente transversais sobre a condição da arquitectura no fim do milénio" materializaram o apogeu disciplinar do fascínio pelo campo da filosofia e pelo pensamento contemporâneo, da investigação da significação dos processos de formalização arquitectónica e da influência revolucionária dos então emergentes meios computacionais. Mas para que nos interessa tudo isto, quando nos propomos abordar a situação da arquitectura e da cidade na América Latina? A verdade é que, em 1996, a 6ª edição das conferências Any, se realizaria em Buenos Aires, com consequências que nos parecem, em grande medida, determinantes e premonitórias. Depois de passar por Los Angeles, Yufuin no Japão, Barcelona, Montreal e Seul, esta conferência na Argentina, sobre a temática Anybody, era significativamente a primeira a realizar-se no hemisfério sul, num contexto periférico em relação ao denominado primeiro mundo. O impacto dessa passagem pela América do Sul ficaria marcada no programa Any, tal como apontava a própria Cynthia Davidson: "Mas o verdadeiro tema da conferência Anybody, evidenciada por muitas intervenções Latino-Americanas, foi a mudança da questão do corpo para o valor de um enquadramento de indecibilidade na ausência de ideologias prescritas e portanto de soluções potenciais para os problemas reais. Pela primeira vez numa conferência Any, a tensão desenvolveu-se entre um desejo crescente por uma nova ideologia, por uma mais determinada e directa visão do mundo neo-moderna ou neo-pragmática (...) e a ideia do Any. Perante este desejo, o Any foi subitamente confrontado com a necessidade de reexaminar as suas referências ideológicas."1 A dimensão simbólica deste acontecimento, num momento crucial de transição disciplinar paradigmaticamente marcado pelo lançamento, nesse mesmo ano, do influente Harvard Project on the City de Koolhaas, vai ao encontro do tema da cidade sul-americana. Que sentido pode ter hoje a definição de uma identidade geográfica mais ou menos alargada? Num mundo cada vez mais globalizado, o que pode definir a especificidade de um determinado território físico e cultural? É certamente verdade que o fenómeno de urbanização generalizada do planeta produz poderosos efeitos desterritorializadores e homogeneizadores. Porém, o que a realização de Anybody nos parece indicar é que existe um qualquer vínculo que cruza e confronta os lugares com os discursos, gerando reacções que tanto podem ser de harmonização como de tensão. Em Buenos Aires, o elaborado discurso disciplinar, saído do flirt filosófico com a desconstrução, confrontara-se com o seu outro, ou seja, com uma realidade que só o podia entender como fuga ou negação dos reais problemas das sociedades em desenvolvimento. E isto assinalava que algo estava a mudar no próprio interior da disciplina, prometendo uma nova relevância à experiência urbana da América Latina.
(…)Jul 2011

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