

Em plena década de 80, Jean-Francois Lyotard afirmava, a propósito da sua famosa reflexão sobre a pós-modernidade, que o valor de uma obra de arte depende sempre da sua "capacidade de gerar futuro"1. Na verdade, a sobrevivência cultural de uma obra de arte mantém um vínculo forte com o efeito da sua repercussão ao longo dos tempos. Os caminhos abertos pela iniciativa de uma obra são assim mensuráveis numa relação estabelecida com a arte vindoura e os seus responsáveis, os artistas, aqueles que, por razões por vezes bem diferentes, continuam a projectar-lhes sentidos e significados operantes, mesmo ou sobretudo sob novos contextos, contribuindo assim para a sua memória, cultura e sobrevivência.
Ora, ao observar retrospectivamente o percurso artístico de António Olaio (Sá da Bandeira, Angola, 1963), iniciado precisamente em meados dos anos 80, projecta-se de imediato a ideia de uma obra sintonizada com os valores do seu tempo, mas que desenha desde os primeiros passos uma compreensão sobre a origem daquilo que faz pulsar a contemporaneidade pós-moderna, em especial na sua complexa abertura ao futuro, isto é, a exponenciação das suas características de apropriação, interdisciplinaridade e hipertextualidade. É nessa medida que podemos identificar o percurso de Olaio como um dos mais atentos e genuinamente empenhados nessa capacidade de lidar com a fluidez processual e disciplinar que hoje anima o impulso criativo, mantendo todavia a linguagem, isto é, a palavra, como matriz de uma performance integral, que tanto recorre à sua manifestação vocal e significante (através da prática musical), como investe no contraste estético-visual que a sua inscrição pictórica lhe assegura perante o jogo dos seus significados. Com esse propósito tantas vezes reafirmado, o artista vai ritmando uma intervenção que convoca simultaneamente a arte e a vida, num intrincado sistema de circular autoreferencialidade.
Deste modo, António Olaio propõe com as suas obras a experiência irónica e quase sombria da linguagem, libertando-a dos constrangimentos imagéticos do seu significado original, para nos chamar a uma nova amplitude, como acção enleante promovida pela combinação de palavras que resultam em jogos fonéticos familiares, embalando-nos numa performatividade musicada (entre o canto e o movimento corporal) que sabe bem do efeito de reconhecimento e identificação que neste âmbito assume a língua inglesa. Com efeito, mesmo quando esta assume uma dimensão visual e pictórica, nunca perde o contacto com a sua origem lírica e musical, actuando sempre de modo apelativo, entre o slogan e a poesia. Aliás, todo o trabalho de António Olaio no campo da arte resulta de uma vontade de intervenção crítica, mas sedutora, onde a performance, o vídeo e a pintura assumem as despesas processuais para confirmarem o insucesso, por vezes hilariante, de toda e qualquer pretensão à estabilidade do significado e da conceptualidade das palavras.
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