
Reabilitar, quê? A memória das coisas? É praticamente impossível. Quando os velhos centros históricos citadinos se deterioram e arruínam, a sua recuperação arquitectónica não completa a história desses bairros. As pessoas envelhecem ou morrem ou, então, mudam de residência. O caso de Alfama pode servir de exemplo. Que resta do velho bairro árabe?, a não ser a lembrança delida de quem lá viveu e transmite, fragmentariamente, as suas recordações, as pessoais e aquelas que lhes foram transmitidas.
Acrescente-se a este abandono, as urgências e as necessidades das gerações mais novas, atraídas por outros locais, mais modernos e com outras possibilidades, inclusive as de salubridade. É preciso não esquecer que a desertificação desses bairros se deve não só a razões sociais, económicas e culturais: a esmagadora maioria das habitações não dispunha de instalações sanitárias, e era habitual haver uma pia comum à entrada do edifício.
Por outro lado, a reabilitação urbana está dividida em duas partes: a da memória afectiva e a da memória física, que, com o tempo e pelos motivos apontados, se degradam e esboroam. Não é só o prédio, a rua, o bairro, a zona. É o próprio desenvolvimento das coisas e a impossibilidade de resposta financeira para essa reabilitação. Quanto custa a regeneração de centenas, se não de milhares de edifícios, cujo valor histórico é, frequentemente, mais do que duvidoso? Os preços são incalculáveis e as instituições, designadamente as Câmaras, não possuem, financeiramente, de disponibilidade da acudir a todos os casos.
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