arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Design

por: Carla Carbone

Basic Initiative

Um design para os outros 90%

Decorridos seis anos após o desastre natural, o furacão Katrina: passados alguns anos desde que se deram as cheias avassaladoras que cobriram de tristeza e morte toda a Nova Orleães. Agora o Japão, envolto num momento negro, em que a dor das suas gentes e as perdas são incomensuráveis, devemos falar num outro tipo de design, um design verdadeiramente público.
Poucas são as vezes em que nos debruçamos sobre o design, e a sua utilidade, no período que sucede a grandes catástrofes ou a desastres naturais. O modo como as pessoas sobrevivem em meios de escassos recursos, ou uma perda súbita de habitação levam a reflectir sobre o poder de criação do homem, bem como a capacidade que ainda têm de fazer aparecer novos objectos, no meio da adversidade, muitos deles contanto apenas com o  aproveitamento de despojos e fragmentos deixados pela força demolidora da natureza. Um design que não é feito a partir do confortável atelier, pertença do designer instruído, mas a partir do saber das gentes que conhecem a região em que cresceram e o clima que os envolve.
Falamos de um design longe dos escaparates das lojas, do glamour, do consumo estonteante, do capricho e do luxo, longe do design que nos distingue socialmente, ou politicamente, da forma pela forma. Falamos antes do essencial.
Os seres humanos "sempre usaram a ingenuidade para resolver os problemas", diz-nos Barbara Bloemink, em 2007, no catálogo Design for the other 90%, e edição oriunda de uma exposição do Cooper-Hewit, National Design Museum. Uma sabedoria que não pode ser menosprezada, e que pode ser a fonte para muito do design dito instruído e erudito. Bloemink fala-nos dos tempos em que, ainda jovem, visitava as Montanhas dos Andes e, nos seus pontos altos, as casas eram cobertas por sinais de trânsito, tirados das estradas e ruas, à revelia. Estes materiais que cobriam as habitações, para além de conferirem, às suas superfícies, um jogo de cores, permitiam, por serem feitos de metais resistentes, que os seus interiores, sejam impermeáveis, e bastante sólidos.
O design feito pelos "ingénuos", pode não ser particularmente atraente, mas pode salvar vidas.
É preciso, por isso, distinguir uma cultura de design que se gera a partir de uma procura de realização pessoal e social, de uma cultura de design que procura responder a necessidades, genuínas.

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Mai 2011

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