arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Pedro Amaral

Pintura Partisan

A referência à mítica combatividade das tropas partisans pode servir de mote a uma comparação aqui proposta. Se um partisan - termo que ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para referir determinados movimentos de resistência à dominação alemã - era um membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área, operando atrás das linhas inimigas com o objectivo de atrapalhar a comunicação, roubar os carregamentos e executar tarefas de sabotagem, parece-nos então que a pintura de Pedro Amaral (Lisboa, 1960) assume ainda hoje, a vários níveis, um sentido claro de resistência e combate clandestino que evoca a inesgotável determinação partisan, ainda que no plano da acção e do empenhamento artísticos. A sabotagem dos significados é, por exemplo, uma das suas principais tarefas, actuando nos bastidores contra o "inimigo" omnipresente identificado no sistema capitalista. Por outro lado, atrapalhar a comunicação do marketing e da publicidade a partir da sua livre apropriação e reconfiguração impõe-se como estratégia matricial desta obra.
Sem prejuízo de outros méritos, a obra de Pedro Amaral resulta maioritariamente de uma combatividade franca e directa sobre o jargão imagético que nos envolve, sustentando assim um eficaz domínio da comunicação contemporânea e o seu uso em prol de uma maior consciencialização estética, social e política. Apesar de recorrer maioritariamente à disciplina da pintura nesse efeito de criatividade e reflexão, o trabalho gráfico e performativo deste artista (expresso, por vezes, não apenas na pintura, mas também no efémero e temporalmente localizado trabalho de performance, como em "Gone to Heaven") revela-nos um modo particular de acesso ao universo neo-pop, donde sobressai uma experiência crítica sobre a acção política dos nossos tempos, desenvolvendo o sentido pós-moderno da citação, da apropriação fragmentária ou o exercício alegórico das imagens e dos seus significados.
Ao convocar e subverter a tradição da banda desenhada e do cinema norte-americanos, bem como a iconografia popular revolucionária, Pedro Amaral apresenta um corpus de trabalho coerente no seu processo de comunicação crítica sobre o sistema imagético que nos orienta, com destaque para uma das mais recentes séries de trabalhos em acrílico que acentua, ao mesmo tempo, uma visão autocrítica e reflexiva, simultaneamente séria e bem humorada, sobre o destino da humanidade. "Bananas!" é o título escolhido para nos deixar, frente a frente, olhos nos olhos, com a paradoxalidade da evolução humana, ou a inversão do lugar natural e social dos primatas na sua relação com os homens. A deliberada comparação entre as frustrações existenciais do homem e a superação psicológica do macaco surge aqui como metáfora sobre a ideia de temporalidade histórica, sobre o "eterno retorno" que nos envolve agora e sempre, anulando ou adiando, uma vez mais, a nossa capacidade de transformação, mesmo perante os evidentes desequilíbrios sociais e naturais da nossa contemporaneidade.

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Mai 2011

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