arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Opinião

por: Baptista Bastos

A modernidade e a arte "popular"

A expressão «popular» tem dado origem a muitos equívocos, ambiguidades e aproveitamentos. Em termos políticos, permite as ocultações mais tenebrosas. Quando aplicada à arte, ou às artes, ela é dicotómica. Mas é muito difícil determinar, com exactidão, o verdadeiro significado da palavra. No século XIX, Garrett, por exemplo, estudou o assunto, e tentou aplicar as suas reflexões numa monumental obra-prima, «Viagens na Minha Terra», na qual as raízes «populares» da narrativa vão-se tornando evidentes à medida que o texto avança.
Teófilo Braga e Adolfo Coelho também dedicaram parte das suas análises à escorregadia questão. E, no século XX, outros dois importantes escritores, José Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira organizaram um volume, «Contos Tradicionais Portugueses», seleccionando e inserindo ensaios explicativos, cujo alcance pode ser aplicado, por exemplo, à arquitectura.
Cada um deles, com as singularidades que lhes eram próprias, procurava estabelecer, através da literatura, o que nos identificava como povo e como identidade cultural. O busílis reside nesse ponto fulcral. A «arquitectura popular» (tomando este conceito com as distanciações devidas) corresponde, no fundo, aos tentames dos nossos arquitectos em corresponder a uma «identificação» natural. Os nossos grandes arquitectos sempre diligenciaram estabelecer uma associação entre «tradição» e «povo», sem nunca esquecer a necessidade de «modernidade» exigida pelas épocas.
A noção ou ideia de «arquitectura popular» tem sofrido alterações, consoante os tempos., e de formas extremamente duvidosas, pois, enquanto nos anos 60-70 do século passado o conceito estava relacionado com a «tradição», na continuidade acrítica das investigações e das propostas literárias, actualmente parece ser característica fundamental um processo de «idealização» da «tradição.» Um exemplo dessa distintiva será o Chiado, de Siza Vieira, que alia elementos das duas variáveis, num todo que resulta muitíssimo bem.

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Mar 2011

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