

A relação entre arquitectura e política está de novo na ordem do dia. No âmbito da Trienal de Arquitectura de Lisboa 2010, a conferência internacional Architecture [IN] ]OUT[ Politics, comissariada por Cláudia Taborda e José Capela, procurou fazer uma abordagem afirmativa dessa relação na contemporaneidade. Será difícil contestar a relevância actual de investimento teórico nessa relação altamente problemática, algo que se revela hoje em múltiplas vertentes: na consciência das insuficiências da lógica produtiva do mercado, assente em inexpressivos modelos banalizadores e homogeneizadores; na crítica ao star-system disciplinar, com a sua relação no mínimo ambígua com as esferas do poder financeiro e mediático; no questionamento da abordagem arquitectónica meramente objectual, com o seu desprendimento contextual em relação à realidade social existente; no interesse pela realidade da urbanização generalizada do globo, com uma focalização por vezes ensimesmada pelos contextos informais de emergência ou crise; na reafirmação de práticas mais activistas e subversivas, inspiradas anacronicamente na contra-cultura dos anos 60 e 70; etc. Mas esta é uma relação problemática essencialmente pela consciência contemporânea, por um lado, do fracasso das alianças históricas entre o povo, as elites culturais e o poder político [IN], que redundaram invariavelmente em lógicas repressivas, por outro, da falta de operatividade de uma posição puramente exterior ]OUT[, assumidamente marginal ao sistema do capitalismo tardio.
Jacques Rancière tem abordado essa problematicidade contemporânea, a partir da relação entre "estética e política". Quando fala da "partilha do sensível", explora essa dupla acepção do termo francês partage, que significa tanto partilha como separação. A "partilha do sensível" é o "regime estético" onde se cruza a intencionalidade política com a realidade concreta, estabelecendo "outras" formas de participação colectiva no mundo da vida. Rancière diz-nos que a "obra política" tem a função de "perturbar a relação entre o visível, o dizível e o pensável", reconfigurando constantemente a lógica de "inclusão" e "exclusão" desse "regime". Falando de arte contemporânea, embora se possa expandir o sentido para o campo da arquitectura, afirma que "a arte política adequada seria a que assegurasse, num só gesto, um duplo efeito: a legibilidade de uma acção política e o choque sensível que nasce, pelo contrário, da estranheza, isto é, daquilo que resiste à significação." (Ver: Jacques Rancière, Estética e Política - A Partilha do Sensível, Porto, Dafne, 2010). Num certo sentido, pode-se entender o título [IN] ]OUT[ como uma manifestação dessa "partilha do sensível". Uma constituição arquitectónica de comunidade que já não se pode conceber como totalizante [IN] nem como extrínseca ]OUT[, sob pena de respectivamente resvalar para o campo da mercadoria ou neutralizar o seu potencial interventivo.
(…)Mar 2011

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Mai 2012

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