arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Livros

por: Mário Chaves

Edward Paice, A ira de Deus, O grande terramoto de 1755

Casa das Letras, 2010

O grande terramoto de Lisboa permanece como um dos últimos vestígios de uma memória que se corrompe rápido face à globalização da informação. De facto, depois de Pompeia e Lisboa, que outras cidades Ocidentais sofreram às mãos da mãe natureza tamanho castigo que provocasse o pasmo geral e indulgência por tamanha desgraça. Nesse século das Luzes, onde Portugal se começava definitivamente a afastar da Europa pela preguiça e banalidade conhecidas, o terramoto veio mostrar que a nossa soberba sobre os descobrimentos e a potência maritíma eram insuficicientes para empurrar os ventos da história e do progresso. Perdeu-se muita memória, energias, a igreja da Nossa Senhora da Divina Providência, de Guarini, o Torreão, de Terzi, a fé. Voltaire viu nesta desgraça a esperança para o Iluminismo, a Sodoma moderna nos seus excessos burgueses. A filosofia do Optimismo de Gottfried Leibniz findava e iniciava-se a filosofia do cepticismo. Jamais a Europa seria a mesma perante estas questões da natural. Portugal permaneceu igual. À capacidade empreendedora do Marques, permaneceu a soberba do Rei. Na lição, Lisboa aprendeu alguma coisa, já os arredores desta (e o resto do país) no século XX na urgência da urbanização e da construção, não aprenderam nada. E o país está feio, à espera de um "terramoto" que o livre dos maus pensamentos, obras e acções. Um acto de contrição seria livrarmo-nos da ideia de progresso dos anos 80, no mau serviço prestado pelos urbanizadores, construtores e políticos em cujas boas intensões mergulhámos de boa fé. Há um Portugal antes e depois do terramoto, nem que seja não, porque não serviu para mudar mentalidades. Agora dizemos que estamos sempre à espera de um terramoto político, cultural, económico; nada acontece. Temos um ditado aziago que afirma ter de remar contra a maré para acontecer algo significativo e relevante, por entre a banalidade e a mediania. Este livro, precioso como nenhum outro conhecido sobre o século XVIII de Lisboa, Portugal e a Europa, pode ajudar a entender as semelhanças deste século com o presente. Há uma relativa surpresa que este livro lúcido tenha sido tão bem escrito sobre um tema trágico; talvez muito na tónica inglesa, como o autor o é, mas indubitavelmente rigoroso nas apreciações e especulações históricas. Apreciamos este relato e enquadramento invulgares, para que Portugal seja singular. Os terramotos também devem servir para isso.

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Mar 2011

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