
Os gregos ensinaram que nenhuma casa é um invólucro, porque todas as casas, modestas ou ostentosas, conservam em si o espírito de quem as construiu e a alma de quem as habita. Esta relação, aparentemente excessiva, contém, em si mesma, uma ideia de «lar», embora nem todas as casas sejam um «lar.» Um lar é o local de família e onde a família se congrega, se refugia, se fraterniza. O calor de uma casa é-lhe atribuído por essa especificidade.
A nossa cultura rural dizia, como axioma, «casa apenas onde caibas; terra, até que a vejas.» É um sintoma de uma ideologia tacanha, baseada numa quase absurda ideia de acumulação pela acumulação, um gosto acrisolado pela posse. A função da casa, neste caso, desprezava o conceito de lar. A casa servia, somente, como lugar das refeições, e para dormir.
O convívio está arredado. O convívio é feito, entre os homens, nas adegas e nas tabernas. As mulheres não participam. As mulheres servem para as lidas da casa e do campo, e para fazer filhos. Andam, silenciosas e caladas, pela casa, e observam, em silêncio, o que se passa em redor. Os livros da antiga escola estão repletos destas alusões, com desenhos a condizer. O ruralismo é o suporte (um dos suportes) de uma ideologia organizada para a obediência e, até, para a servidão.
Os laços sociais, apoio de qualquer comunidade e princípio civilizacional, são, pura e simplesmente, ignorados. A grande contradição desta ideologia é que, ao mesmo tempo que coloca as mulheres num plano secundário, alimenta a doutrina da família, do lar, dos filhos, muitos filhos.
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