arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

André Tavares

GERAÇÃO Z - Perspectivas Críticas

Arquitecto, Docente DAA-UM, Editor Dafne

arqa: A questão geracional na arquitectura portuguesa atravessou recentemente os debates disciplinares. Existem diferenças geracionais na arquitectura portuguesa contemporânea? Se sim, de que forma se manifestam essas rupturas geracionais? Se não, quais as constantes e identidades que fundamentam a continuidade dos valores?
André Tavares: É óbvio que existem diferenças geracionais. Creio que aquilo que o debate recente esqueceu é que a identificação dessas diferenças esconde, em vez de explicar, as particularidades da produção arquitectónica. É por isso que não estou nada preocupado em saber como se manifestam essas rupturas, nem tão pouco em forjar identidades ou continuidades. Ambas essas perspectivas, baseadas em supostos conflitos ou continuidades geracionais, são construções relativamente independentes dos fenómenos e das circunstâncias da produção da arquitectura. Nenhuma delas explica por si só as condições e os modos de fazer contemporâneos. Um arquitecto que inicia hoje a sua prática profissional tem perante si um cenário radicalmente diferente de um arquitecto instalado na praça há 10 anos atrás e, ainda mais diferente, de um outro com 30 anos de prática profissional. Embora os 3 trabalhem com as mesmas empresas construtoras, disputem clientes equivalentes e partilhem o aparato regulamentar e burocrático, os 3 dispõem de créditos e recursos diferentes. Interessa-me, sobretudo, perceber como gerem esses recursos e lidam com constrangimentos e, como é que esse fazer se torna substância em obra construída. Se olho apenas para o resultado, para o objecto construído ou projectado, vejo diferenças óbvias. Só que ao dizer que essas diferenças espelham a distância ou a proximidade geracional, que são continuidades ou rupturas, estou a apagar a riqueza dinâmica da sua produção. E ao apagar essas qualidades apago também aquilo que, na crítica e no debate da arquitectura, nos pode ajudar a compreender melhor o mundo em que vivemos. É por isso que respondo a essa pergunta com um clássico, preferia não o fazer.

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Set 2010

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