
«Fome de eternidade têm os homens», escreveu o grande poeta mexicano Octavio Paz, notoriamente inspirado nas parábolas bíblicas. E a Bíblia, não o esqueçamos, foi escrita por homens. Aliás, os homens, acaso por medo e por se protegerem dos seus medos, criaram os deuses e aquilo que os transcende, por desconhecimento.Ao erguerem cidades, monumentos, templos ou cenotáfios, eles mais não desejam do que perpetuar a sua memória, a sua escassa passagem pela Terra. O medo, sempre o medo, que transforma a vida num património. O património é, pois, a homenagem do homem ao homem, mesmo quando afirma estar a glorificar Deus. O que resta, o que fica são as grandes criações, as grandes construções humanas. Desde o começo do mundo a humanidade não quis perder o seu traço, os riscos da sua imensa e dolorosa caminhada. O homem do paleolítico, e mesmo muito antes do paleolítico, assinalou, nas grutas secretas, os seus rudes trabalhos, os seus amores, o modo e as maneiras com que amanhava a terra, amaciava as rochas, inventava o fogo. Porque motivos imperiosos resolveu testemunhar? Pelo simples facto de ser uma criatura gregária e comunicacional. Por entender, desde a mais longínqua antiguidade, que tinha de estabelecer uma espécie de diálogo com os outros, um laço social com os que haviam de vir. Patrimonialmente há um manifesto desejo de «democratização» do conhecimento, muito antes de a democracia ser estabelecida por Péricles. O homem das cavernas possui uma necessidade de dizer; de fazer com que as suas experiências não desapareçam com ele e com os seus. Ele está interessado nos outros. De uma maneira confusa, evasiva e rudimentar, é certo, mas interessado. É o seu património cultural, social e humano que pretende legar.
(…)Jul 2010

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Jul 2011

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Mai 2011