arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Acções Patrimoniais

As tensões entre a memória do passado e a experiência do presente

1. A questão patrimonial não pode ser dissociada da vida quotidiana. Poder-se-ia dizer que a emergência e desenvolvimento da própria ideia de património se deve fundamentalmente ao desfasamento entre a memória do passado e a experiência do presente. Por isso, esta temática está associada a sentimentos não só de angústia e ansiedade, mas também de melancolia e nostalgia. Porque somos sempre assaltados por essa sensação de falha e perda quando tratamos do património? Essa condição negativa que sustenta a ideia de património deriva da realização simultânea de uma alteração do paradigma conceptual e da afirmação de uma nova realidade produtiva. Isto é, a ideia de património é filha da modernidade e da modernização.1 Por um lado, o projecto da modernidade, com a sua concepção progressista e dinâmica do processo histórico, concentrava no presente a negociação entre um passado realizado e um futuro a realizar. Neste sentido, mais do que um lugar do estável e vivo, o passado tornava-se o registo do mutável e ultrapassado. A ideia de património surge assim de uma condição negativa por distanciamento. Por outro lado, a modernização, iniciada com o fenómeno radical da industrialização, efectuou uma ruptura sem paralelo na realidade física e social da cidade e do território, diferenciando o moderno do antigo. Deste modo, essa nova realidade mais do que integrar a ordem material e produtiva prévia manifestava o conflito insanável com ela. A ideia de património assume assim uma condição negativa por desaparecimento. Em suma, se, por um lado, o passado é remetido para o campo do mero testemunho, por outro, o passado sofre um constante processo de destruição. Distanciamento e desaparecimento são paradoxalmente as duas faces de uma mesma moeda, duas condições inversamente proporcionais que fundam a negatividade da ideia de património. O síndroma contemporâneo do património nasce do distanciamento memorial que afasta o património do mundo da vida e do desaparecimento material que o recupera como trauma existencial. Pressentimos que temos de quebrar este círculo vicioso da negatividade para podermos desenvolver uma outra ideia mais imponderável de património. Uma concepção que se aproxime da experiência vivida ao mesmo tempo que se afasta do peso paralisante da história. Uma ideia que desenvolva outra perspectiva patrimonial mais actuante e aberta, perante uma realidade em mutação acelerada cada vez mais instável e imprevisível. Para que a permanência não se torne petrificação. Para que a resistência não se torne resignação.

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Jul 2010

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