arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Design

por: Carla Carbone

Marcel Wanders

Forma e matéria

Marcel Wanders parece dispensar apresentações. Todos nós já nos deleitámos com a conhecida "knotted chair", a cadeira que o catapultou internacionalmente, já nos familiarizámos com as formas generosas da Vip Chair e com o brilho e finura da cadeira "flower". Os motivos florais e o cariz figurativista das suas peças têm acompanhado o trabalho do designer. Denunciando um princípio importante nesta década: a atenção prestada às formas naturais e aos motivos florais, reforçando a ideia que é urgente tomar atenção ao ambiente, tomar atenção ao planeta. Desta vez o designer apresentou um projecto em Milão que consiste numa linha de cadeiras cujas pernas são ajustáveis aos assentos por meio de uma rosca. Há o exemplo da "XO collection" em que as cadeiras são compostas por estes pés roscados e o espaldar, de acrílico transparente, quase nos induz em erro. Confundindo-se a cadeira com uma mesa pequena. Estas cadeiras XO já ilustram a ideia do designer para um mundo que se tornará cada vez mais flutuante. Na realidade, algumas das cadeiras Xo, uma gama que se assemelha à sparkling chair pelo princípio técnico, ostentam pés também eles transparentes, o que nos conduz a uma sensação de leveza. As cadeiras parecem flutuar. Marcel Wanders parece querer libertar-se das amarras, do peso da matéria. Ou antes, controlar, enformar a matéria. O desejo do homem superar a matéria. Segundo Vilém Flusser os filósofos gregos quando escolheram a palavra hyle não estavam a pensar em madeira no sentido universal, pois a palavra "matéria" daí deriva, mas do amontoado de madeira que se acumulava nas oficinas dos marceneiros. Para os gregos a palavra forma precisava de um termo que fosse o seu oposto. A palavra "formé" (forma em grego) teria como sua palavra oposta em significado: Hyle (matéria). Assim hyle, indica algo de amorfo. A ideia de "Fundo é: o mundo de fenómenos que percebemos com os nossos sentidos é um caos amorfo atrás do qual estão escondidas formas eternas, imutáveis, que podemos percepcionar graças à visão supra-sensorial da teoria. (...) O caos amorfo de fenómenos (o mundo material) é uma ilusão e as formas escondidas atrás dela (o mundo formal) constituem a realidade que pode ser descoberta através da teoria". Em design, vemos, por isso, vezes sem conta a matéria tornar-se forma, e depois voltar a ser matéria novamente. No sentido grego do amontoado de material, no sentido amorfo da palavra matéria. "É possível reconhecer o modo como os fenómenos amorfos confluem nas formas, as preenchem, para depois defluírem mais uma vez no amorfo". Sabemo-lo. Conseguiríamos ilustrá-lo com as múltiplas vezes em que o plástico é derretido para dar vida e forma a novos objectos. Tais reflexões conduzem-nos ao constante devir das artes, ao problema do ambiente, à forma como se procuram resolver alguns dos problemas ambientais. A reciclagem ilustra de forma bem visível este princípio. Ao observarmos o entusiasmo de um designer que imortaliza um objecto. Um objecto cuja matéria plástica, como a cadeira sparkling, possa ser reciclado e usado novamente.

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Jul 2010

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