arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Xavier Costa

Fundación Mies van der Rohe

Intervindo no Pavilhão de Barcelona

Quando encarregado de projectar o Pavilhão que representaria a Alemanha na Exposição Internacional de Barcelona de 1929, Mies van der Rohe produziu uma estrutura que não conteria nenhum produto ou material a ser exibido. O Pavilhão foi concebido como espaço para eventos cerimoniais e recepções, mas, acima de tudo pretendia exibir-se a si próprio. A representação da Alemanha foi por isso entregue a um arquitecto, uma construção exemplar que incorporasse as novas ideias e propostas que vinham sendo desenvolvidas por Mies e colegas da Bauhaus no final dos anos 20. Neste sentido, o Pavilhão era também um produto Alemão. O seu material mais impressionante, os longos planos de vidro que por essa altura apenas poderiam ser produzidos na Alemanha, foram transportados pela Europa até ao Pavilhão. O mesmo aconteceu com a escultura de bronze de Georg Kolbe, assim como com as cadeiras e bancos de Mies. Apenas o mármore e o travertino foram transportados de locais diferentes da Europa e Norte de África.
O Pavilhão Alemão foi uma arquitectura concebida pois para a exibição temporária de si própria. No entanto, ao contrário de outras estruturas auto-exibíveis, como a Torre Eiffel em Paris, o Pavilhão de Barcelona não estava a salvo do seu já planeado desaparecimento. Em 1930 a maioria dos materiais encontrava-se dispersa, com o intuito de ser vendida. Cedo, o Pavilhão se tornou num marco da arquitectura Modernista, repetidamente impresso, exibido, discutido e ensinado.
Por volta dos anos 50, alguns passos preliminares foram tomados para o reconstruir. Mies foi abordado por alguns arquitectos e políticos Barceloneses, e deu uma aprovação sucinta à ideia da sua reconstrução. Este projecto apenas tomou forma definitiva em 1980, quando o presidente da Câmara de Barcelona solicitou a reconstrução do Pavilhão, a qual foi executada entre 1982 e 1986, após muita investigação e documentação. Por um lado, tal satisfez claramente aqueles que tinham sonhado poder passear por esses espaços só vistos em fotografias e desenhos. Por outro lado, e mais significativo que o impulso político do presidente da Câmara de Barcelona, este actuou como um artefacto menemónico do esplendor cosmopolita Barcelonês pré-Guerra Civil. Depois de várias décadas de relegação a um estatuto provincial, invisível, Barcelona desejava desesperadamente reconstruir-se, para reobter uma ligação perdida com o seu passado, o que era encapsulável num artefacto como o Pavilhão. Esta estrutura foi, por isso, fortemente carregada de significados, arquitectónicos, históricos, políticos, e deteve capacidade de despoletar alguma controvérsia. De uma forma que também se percebe, alguns viram esta reconstrução como a violação de uma ausência que deveria permanecer invisível. O Pavilhão pode pois também ser interpretado enquanto cópia de um inexistente original, um simulacro.

 (…)

Jul 2010

Outros artigos em Crítica

Imagem - A Ficção Tardomoderna

A Ficção Tardomoderna

1. Interessa-nos, no âmbito do tema "ficção", delinear uma possibilidade de entender o nosso transitório presente. Como será o moderno tardio, pós-modernismo, e suas múltiplas derivações, historiado de acordo… 

Jan 2012

Imagem - Arquitectura e Investigação

Arquitectura e Investigação

1.1. Este texto debruça-se sobre a experimentação e reprodução de conhecimento na Arquitectura contemporânea, tendo em conta o contexto universitário em que actualmente se processa a sua formação e… 

Dez 2011

Arquivo de Crítica