arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Gonçalo Furtado e Rosa Macedo

Evolução de paradigmas no século XX

Da Conservação Arquitectónica à Reabilitação Urbana

Escreveu o arquitecto português Fernando Távora: "A Cidade, sem dúvida a maior criação física do Homem e uma das mais significativas criações do seu espírito".1
Neste texto, pretendemos abordar esta significativa "criação física" proveniente do espírito do homem, na óptica da necessidade de reabilitação que hoje as cidades apresentam. Na contemporaneidade, as cidades demonstram uma grande heterogeneidade formal e mistura de temporalidades. Com frequência, distingue-se a presença de núcleos com características específicas, necessários de valorizar e simultaneamente adaptar ao panorama contemporâneos, a contextos distintos daqueles que estiveram na base da sua origem. De particular importância são as áreas designadas de "Centros Históricos", aglomerados conformados em outros tempos (medievais, renascentistas ou barrocos), que sobrevivem nas cidades, por vezes isolados relativamente na nova organicidade urbana que se dilata até às periferias.
Interessar-nos-á salientar uma sequência de momentos e posturas distintas quanto à temática de intervenção em Centros Históricos. As preocupações com a intervenção nestas áreas, em grande medida, afirmaram-se no século XX. Tal não significa que não fossem anteriormente consideradas, mas determinaram-se então princípios mais específicos. Um dos períodos mais propiciadores de preocupações relativamente aos Centros Históricos foi, sem dúvida, o da Industrialização, apesar de numa primeira fase essas incidirem somente na questão da recuperação, e naquilo que especificamente diz respeito ao restauro de Monumentos. Salienta-se também, num período inicial, dois protagonistas em redor da teorização da preservação do Património, ainda que ambos afastados quanto à forma de considerar o Restauro - o francês Viollet-le-Duc (1814-1879) e o inglês John Ruskin (1819-1900). Viollet-le-Duc, interessado num estilo próprio caracterizador do século XIX, considerava o restauro enquanto combinação de particularidades históricas e de transformação advinda de intervenções criativas. Para o autor, Restauro "means to reestablish [a building] to a finish state, wich may in fact never have actually existed at any given time"2. Trata-se de uma postura algo utilitária quanto ao Monumento. Esta consiste em algo distinto da valorização simbólica e estética defendida por Ruskin. Para Ruskin, restaurar seria "(...) tão impossível como ressuscitar um morto (...) significando a mais completa destruição que um edifício pode sofrer, destruição que consiste numa falsa restituição do Monumento destruído"3.
Trata-se de uma postura algo "nostálgica", ou pelo menos assente numa certa nostalgia do passado. Neste sentido interessar-nos-ia salientar tratar-se de um aspecto que seria caracterizador dos princípios de intervenção em Centros Históricos no Século XX. Identifica-se aí um reconhecimento do edificado envolvente ao Monumento, geralmente constituído pela arquitectura doméstica. Em suma, a ideia de Monumento Histórico estende-se à cidade antiga, proporcionando a noção de "Património urbano".

 (…)

Jul 2010

Outros artigos em Crítica

Imagem - A Ficção Tardomoderna

A Ficção Tardomoderna

1. Interessa-nos, no âmbito do tema "ficção", delinear uma possibilidade de entender o nosso transitório presente. Como será o moderno tardio, pós-modernismo, e suas múltiplas derivações, historiado de acordo… 

Jan 2012

Imagem - Arquitectura e Investigação

Arquitectura e Investigação

1.1. Este texto debruça-se sobre a experimentação e reprodução de conhecimento na Arquitectura contemporânea, tendo em conta o contexto universitário em que actualmente se processa a sua formação e… 

Dez 2011

Arquivo de Crítica