

Desde pelo menos os projectos "Traveller Cheque" (1996) e "Hotline" (1997-98) que o trabalho artístico de José Maçãs de Carvalho tem vindo a reflectir, de modo interdisciplinar, sobre as relações de dependência e contaminação que sempre se estabelecem entre o processo criativo, a imagem e a linguagem, operando assim, a partir desses conceitos, uma espécie de análise crítica em torno da fragmentação e virtualização deceptiva do real contemporâneo.
Na verdade, a leitura do modelo económico e cultural capitalista, baseado na livre concorrência e no profundo agenciamento da actual sociedade de consumo, exerceu sobre o trabalho de José Maçãs de Carvalho uma influência extraordinária a partir de 1994, altura em que o artista passa a viver em Macau, prolongando a sua presença no Oriente até ao final dessa década1. A distância geográfica e a diferença cultural operada pela troca de Portugal por Macau resulta então determinante no desenvolvimento de um trabalho criativo que amplifica os seus processos de apresentação, abandonando a estrita ligação à imagem fotográfica ao procurar estabelecer relações diversas entre os sistemas de circulação da mensagem verbal e visual. A tecnologização da imagem e a aparente disponibilidade instantânea da sua eficácia introduzem no seu trabalho uma necessidade absoluta de reflexão sobre as estratégias linguísticas que subjazem ao poder de contrafacção que hoje prolifera entre a palavra e a imagem. De outro modo, o próprio conceito de viagem sofre então uma excepcional reformulação, convertendo-se não só num modelo operatório que responde eficazmente aos sintomas de alteração da percepção sobre o real e o virtual, como se mantém ainda paradoxalmente actuante no domínio de uma reinvenção da memória. Porém, essa memória está já bastante distante da que havia motivado a evolução da fotografia enquanto privilegiado sistema de registo sobre o acontecimento. Esta é uma memória fragmentada na sua consciência de valor poético individual e projectada, cada vez mais, numa interrogação sobre a paisagem mediática que interfere no próprio trabalho artístico, pretendendo realizar criticamente, no confronto das imagens e da sua complexa estrutura de linguagem, "uma arqueologia do significado político"2 desse lugar que é Macau, estabelecendo desde logo uma leitura sobre a sua híbrida condição cultural, económica e política, ou como esta corresponde à metáfora de identidade difusa e plural que caracteriza a actual epigonização do sujeito contemporâneo. Na sequência dessa significativa alteração, "Traveller Cheque" corresponde ao primeiro projecto artístico que marca uma disseminação ou desmaterialização da obra de arte enquanto objecto específico.
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