

Sem olhar para trás, realizámos em Março passado, na semana cultural da Universidade de Coimbra, o evento "Mulheres na arquitectura". Organizámos um colóquio, uma exposição e uma publicação. A pertinência do tema em questão está longe de ser consensual. Para alguns, a julgar pelas reacções, trata-se de algo exótico. Mas o debate no final da sessão suscitou intervenções bem acaloradas. Mesmo para os reticentes, este tema toca num nervo. Para quem o sente - particularmente, as mulheres com consciência da sua história - é central. Como tive oportunidade de dizer na abertura, quando lancei o projecto dei-me conta de duas reacções: os homens riam-se; as mulheres desconfiavam. Um riso de tipo nervoso, é claro. E uma desconfiança com nuances: da arrogância de quem pensa que não há um "problema" à ignorância de quem desconhece a história recente ou antiga. Ou, talvez, o desconforto legítimo em ser tratado como "tema".
Em qualquer dos casos, seja qual for a perspectiva que se assuma, o tema existe. E há uma aprendizagem a fazer. O longo e penoso processo de emancipação da mulher é bem real. E, historicamente, a arquitectura é uma disciplina essencialmente ocupada pelo homem. Do meu ponto de vista, a presença da mulher na arquitectura, como noutras áreas, demonstra o grau de desenvolvimento das sociedades. Entre nós, tem sido escassa.
Mas são notórias profundas alterações na "sociologia" das universidades, que servem como sinal. Como, a propósito, escreveu Miguel Esteves Cardoso:
"À medida que se vão removendo as barreiras com que os homens protegem os seus privilégios da concorrência das mulheres, as mulheres vão mostrando que são melhores do que nós e nós vamos percebendo porque é que gastávamos tanta energia e brutalidade a reprimi-las".1
O colóquio "Mulheres na arquitectura" realizou-se no dia 4 de Março, no auditório do Museu da Ciência. A comunicação de abertura foi feita por Helena Roseta, uma das figuras centrais da defesa de políticas de emancipação da mulher, no nosso país, e arquitecta com responsabilidades na gestão urbanística, enquanto vereadora da Câmara de Lisboa. A sua intervenção tratou exactamente da relação entre as "mulheres e o espaço urbano". Seguiu-se a apresentação de trabalhos de investigação de seis arquitectas recém formadas, como exemplo da crescente e qualificada presença da mulher no campo da arquitectura.
Mai 2010

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