arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Bernd Upmeyer

Mercados Criativos - Perspectivas Críticas

Arquitecto, Urbanista, Docente Kassel, Fundador e Editor MONU - Magazine on Urbanism

 

arqa: Tendo em conta o seu interesse na investigação urbana radical e a sua actividade como editor da revista MONU, como interpreta a situação e as actuais relações entre a arquitectura e o mercado globalizado?

Bernd Upmeyer: Num mundo cada vez mais interligado e com a crescente interdependência das economias nacionais por todo o mundo que têm levado definitivamente à emergência de um mercado global, os arquitectos - assim como todas as outras empresas e indústrias - têm a sua existência mais do que nunca desafiada e ameaçada. Hoje em dia, um arquitecto que habite em Lisboa não compete só em clientes e encomendas com arquitectos do Porto mas também com arquitectos de São Paulo, Nova Iorque ou Tóquio. No entanto, a pressão não aumentou só entre arquitectos, mas também e especialmente entre as empresas imobiliárias algo que, porventura, se reflecte na profissão do arquitecto. Um empresário de uma agência imobiliária de Roterdão explicou-me recentemente numa entrevista, publicada na nossa última edição MONU #12 sob o título "A vida sem arquitectos", que as empresas imobiliárias hoje em dia consideram que 600 euros por metro quadrado é um preço de construção caro. Isto é bastante chocante se considerarmos que o preço à volta de 1000 euros por metro quadrado era considerado barato. Mas os orçamentos baixos não são a maior ameaça para os arquitectos. O mesmo empresário disse-nos que, actualmente, as empresas imobiliárias evitam, cada vez mais, trabalhar com arquitectos e preferem colaborar directamente com as empresas de construção, dado que estas, na sua opinião, têm um entendimento melhor da sua profissão e são bem mais baratas que os arquitectos. Mas esta tendência é acompanhada por outra tendência extrema. Desde que projectos como o Museu Guggenheim em Bilbao provaram que investimentos muito grandes levam a receitas muito grandes para as empresas promotoras - pelo menos, foi desta forma que foi exposto em vários artigos de revistas e jornais -  mais edifícios dispendiosos, icónicos e glamorosos, projectados por arquitectos famosos, têm sido construídos. Por um lado, se ambas as tendências extremas continuarem, a maior parte dos equipamentos construídos das nossas cidades serão no futuro ou feitos de cartão e desenhados apenas por arquitectos sem talento e desinspirados, trabalhando para grandes empresas de construção. Por outro lado, esta vasta massa de avareza será pontuada por alguns edifícios lindos e glamorosos, como "pontos quentes vermelhos de intensidade, rodeados por um plano de alcatrão", como em tempos Rem Koolhaas referiu.

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Mai 2010

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