

1. A intensificação recente das relações entre a arquitectura de autor e a realidade do mercado tem sido um tema sensível entre arquitectos. Esta situação deriva de uma série de factores que revela a dificuldade dos arquitectos em enfrentar claramente a questão. Em primeiro lugar, em termos profissionais, os arquitectos resistem a avaliar a sua actividade através da resposta às condições produtivas que envolvem o seu exercício.
A actividade arquitectónica é essencialmente entendida como um campo autónomo de produção de obras qualificadas, no essencial não dependentes ou determinadas pela natureza da encomenda. Em segundo lugar, em termos disciplinares, os arquitectos continuam a ser herdeiros das concepções modernas, que encontram na lógica produtiva do mercado as fontes da degradação e desqualificação do ambiente construído. O projecto arquitectónico torna-se assim um instrumento privilegiado de oposição à lógica capitalista dominante, contrariando as suas habituais manifestações urbanas e arquitectónicas. Em terceiro lugar, em termos criativos, os arquitectos encontram na produção do mercado a negação da especificidade do trabalho autoral, manifestada através da repetição genérica de modelos simplistas e banalizados. Neste sentido, a produção arquitectónica comercial é entendida como sinónimo de mera convencionalidade, a antítese da verdadeira criação arquitectónica. Mas será que esta ordem de pensamento continua a reflectir a realidade? Continuam o mercado imobiliário e a arquitectura de autor de costas voltadas? A observação da realidade actual parece contradizer-nos. De facto, a partir da análise da produção dos principais escritórios internacionais e nacionais, estes últimos que analisei recentemente noutro âmbito,1 começa a ser difícil sustentar as anteriores dicotomias entre encomendas pública e privada, entre clientes institucional e empresarial, ou mesmo entre tipologias cultural e comercial. O que caracteriza o actual momento da arquitectura é a tendência para a sobreposição e indiferenciação dos tipos de encomenda e cliente. Perante a privatização generalizada das sociedades na contemporaneidade, com a consequente rarefacção da encomenda pública e a explosão da iniciativa privada, os arquitectos não podem deixar de encontrar novos desafios criativos em áreas de trabalho emergentes no âmbito da promoção empresarial e comercial. Luxuosos condomínos habitacionais nos centros históricos, modernizantes conjuntos habitacionais suburbanos de lazer, relaxantes resorts turísticos, monumentais complexos hoteleiros, distintos equipamentos escolares e de saúde privados, espectaculares museus de marca, icónicas sedes corporativas, amplos empreendimentos de escritórios, imponentes centros comerciais, sensíveis lojas de elite, cativantes infra-estruturas produtivas e de transporte formam hoje uma parte substancial do trabalho dos mais destacados arquitectos. Torna-se neste sentido sintomática a apropriação pelo domínio privado da tradicional função pública, representativa e institucional da arquitectura, aquilo que alguns definiram como "culturalização da mercadoria", ou seja, o outro lado da "mercantilização da cultura". Isto torna-se muito evidente, por exemplo, na recente aposta de qualificação arquitectónica patente em áreas tão diferenciadas como a industria automóvel e a produção vitivinícola. Em suma, a transição do novo milénio trouxe uma nova consciência da relevância do(s) valor(es) da arquitectura numa economia de mercado globalizada.
Mai 2010

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Dez 2011