

Desde as civilizações pré-clássicas que o retrato de pendor naturalista exerceu um fascínio místico fundamental, resultando essencialmente como auxiliar de memória e evocação da grandeza e do perfil dos retratados. Desse modo, o retrato estabeleceu sempre, ao mesmo tempo, uma inevitável leitura sobre a transitoriedade entre a vida e a morte, recortando assim um fio de ligação entre todos os tempos. Na verdade, ao retrato e à sua citação espácio-temporal, cristalizada em pura imagem fixa, associamos uma tarefa testemunhal determinante no labor memorialista mais comum associado ao reconhecimento e à identidade que nos une enquanto seres humanos pertencentes a um todo histórico. Ao longo dos tempos e das gerações, a memória visual daqueles que haviam merecido a distinção de posarem para o retrato representou um manancial de valores e simbologia acerca do passado e da herança recebida com a visualização dos antepassados, daqueles que haviam vivido antes e partilhado connosco uma ligação geracional, familiar ou civilizacional.
No início, o retrato reflectia o resultado da "imagem de uma pessoa realizada com a ajuda de algumas das artes do desenho", acabando por se impor, pelo seu próprio potencial identitário, como um dos géneros pictóricos mais solicitados e consolidados em qualquer época histórica, dependendo apenas ou sobretudo do poder de compra do encomendador, com destaque para todos aqueles que dominaram no seu tempo a acção política, religiosa e económica, desde as famílias reais ao papado, da aristocracia de corte à burguesia mercantil. Por outro lado, ainda hoje as enciclopédias definem o retrato como "uma evocação de certos aspectos de um ser humano particular, visto por outro", denunciando aqui uma evolução entre a imagem "fiel" e uma perspectiva mais individualizada e subjectiva do retratado. Do retrato real de carácter oficial ao retrato de ostentação, do retrato de fundo neutro ao retrato de fundo com imagens, de perfil ou de frente, de conjunto ou individual, do auto-retrato ao retrato psicológico, a imagem singular que tem por objectivo distinguir a individualidade do ser humano retratado apresenta, de facto, uma longa tradição no domínio da história da arte, mantendo ainda hoje uma importância artística e cultural que prende invariavelmente, pela sua idiossincrasia epistemológica, a atenção das novas gerações.
(…)Mai 2010

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