
Neste número, entrevistamos João Urbano, editor da revista Nada. A revista Nada é uma publicação pluridisciplinar, de pensamento, arte e ciência, que se debruça em especial sobre a tecnocultura. Edita-se em suporte papel desde Outubro de 2003 e vem trabalhando directamente com filósofos, artistas e cientistas, na promoção e hibridação de projectos entre campos disciplinares distintos.
Sandra Vieira Jürgens: Seria interessante que começasse por tentar definir a sua actividade porque acho que tem um percurso e uma versatilidade curiosas. Como é que se define? Editor, escritor...?
João Urbano: Essencialmente para onde canalizo o meu jogo, digamos assim, é para a literatura. Tudo o resto, de uma maneira ou de outra, vai reflectir-se no meu trabalho ficcional: seja a ciência, a tecnologia, a filosofia, a arquitectura ou as artes plásticas. Pode-se sempre utilizar tudo mas tem que se ter um filtro muito potente porque senão corremos o risco de estar a matar a literatura. Portanto a literatura é, para mim, uma espécie de catalisador ou máquina destiladora de tudo o resto. Muitas vezes a Ana Teresa diz-me que me estou a dedicar aos outros em vez de me dedicar ao meu trabalho. Em parte isso acontece porque os meus próprios interesses intelectuais, entre aspas, remetem para coisas muito diferentes. Não sou propriamente um especialista em nada; nunca entrei na universidade mas sempre me interessei por muitas coisas, tanto por história, como por filosofia ou ciência. O que tenho é uma espécie de curiosidade inata e incessável que me faz gostar de estar próximo desses campos e, de certa maneira, a literatura foi sempre o território para onde achei que podia canalizar toda essa diversidade, de modo a poder construir algo de outro, isto é, de fazer um trabalho literário não epigonal e que de algum modo escapasse à literatura, sem escapar. Apesar de, até muito tarde, ter ido sempre matando aquilo que escrevia. Até aos 30 e tal anos destruí quase tudo e o resultado é que, neste momento, não tenho quase nada: tenho meia dúzia de coisas que produzi. Como sou um pouco autodidacta e nunca tive a disciplina de trabalho, nem me impuseram nada, ia fazendo as coisas quase aleatoriamente. Mas 15 dias ou três meses depois, quando olhava para essas coisas, o resultado era só um: rasgar, rasgar, rasgar. Só no fim dos anos noventa as coisas mudaram.
(…)Mai 2010

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