

Porque será que a maioria dos arquitectos ficam inquietos perante as imagens da Rua da Estrada? O livro de Álvaro Domingues oferece-se à leitura sob um ponto de vista não especializado. Talvez seja essa a razão do seu sucesso e, a sessão de lançamento que o apresentou, parece confirmá-lo. Da sexologia ao humor radiofónico, das artes plásticas à história da ciência, da geografia à política, cada imagem suscitou leituras próprias, descodificações que complementavam e extrapolavam a narrativa específica do livro.
Álvaro Domingues é geógrafo de formação, ciência complexa que, tal como a arquitectura, convive na fronteira entre a análise das características físicas e concretas da realidade (da geologia do lugar à estatística) e a descodificação sensível dos comportamentos humanos. A sua familiaridade com a arquitectura teve origem no meio do urbanismo e do planeamento e, em sentido inverso ao de muitos arquitectos, Álvaro Domingues tem ampliado a sua escala de problematização disciplinar ao nível do detalhe e da construção individual. Será, porventura, sinal de descrença ou desânimo relativamente aos sistemas tutelares de planeamento mas é, com certeza, sinal de vitalidade da arquitectura como disciplina capaz de fornecer estratégias frutíferas de conhecimento do real.
Ao contrário de muitos arquitectos, cuja formação incide particularmente no controlo e garante da coerência das práticas construtivas em jogo num projecto, Álvaro Domingues usa a arquitectura em sentido inverso: descodifica o real a partir das práticas construtivas. Essa estratégia permite-lhe tocar no coração da arquitectura de um modo estranho aos arquitectos, sem se preocupar com os códigos próprios da disciplina. Será essa a razão do sucesso da Rua da Estrada? O facto de quebrar a barreira disciplinar e se dirigir à opinião pública sem distinção de género profissional?
Creio que a primeira razão do sucesso é o humor armadilhado. O livro apresenta uma imagem familiar, da qual desdenhamos instintivamente, uma imagem cuja sátira inócua rotulou Portugal no seu melhor. Estamos de tal forma habituados ao lugar comum da perda, e ao argumento da desgraça inculta, que nos regozijamos perante o retrato cru da origem do pecado. No automóvel de Álvaro Domingues, distraídos no banco de trás, somos imediatamente sacudidos na contracurva. Na Rua da Estrada cada imagem é sujeita a um escrutínio que a domestica, que nos conta a sua história e as suas razões, obrigando-nos a um olhar mais atento e informado. A sua visão consegue neutralizar as hierarquias culturais e aproximar diferentes mundos.
(…)Mar 2010

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